Memória de Minhas Putas Tristes.

Memória de Minhas Putas Tristes

Autor: Gabriel Garcia Márquez
Editora: Record
Ano: 2010
Edição: 22ª
Páginas: 127
Tradução: Eric Nepomuceno
Original: Memoria de mis putas tristes

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Cresci ouvindo de minha mãe que Gabriel Garcia Marquez era chato. Ela odiou Cem Anos de Solidão (e olha, minha professora de natação também me disse algo parecido semana passada). Há, aqui em casa, um exemplar que mamãe ganhou de aniversário do meu tio (nos idos da ditadura militar brasileira), com dedicatória e tudo (mas eu mesma li no Kindle). Mas ela sempre disse que nunca conseguiu terminar de ler Gabo. Destemida, resolvi arriscar e debutar com Memória de Minhas Putas Tristes. Posso afirmar agora que eu também presentearia alguém querido com um livro do escritor colombiano.

Este livro é narrado por um jornalista ancião solitário, na Colômbia de Gabo, na véspera de seu aniversário de noventa anos. Não sabemos seu nome, e ele também não se apresenta. Logo no início, ele diz que no ano que completaria seus noventa anos, daria a si mesmo uma noite de amor tórrido com uma adolescente virgem. Para algumas pessoas seria um soco no estômago. Um disparate sem precedentes. E a bem da verdade, inconstitucional. Mas já li Lolita, de Nabokov, e confesso, a ideia de uma adolescente virgem ser foco de um adulto não me pagou de surpresa.

O narrador tem a consciência de que a morte se aproxima, evidenciado em trechos como: “Às vezes parecia ser uma garrotada da morte e no dia seguinte se esfumava. Nessa época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai. Devo estar condenado à juventude eterna, pensei então, porque meu perfil equino não se parecerá jamais ao caribenho cru que era meu pai, nem ao romano imperial de minha mãe. A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam”.

A presença irreversível da velhice e a percepção (algumas vezes implacável) de suas consequências fisiológicas é um tema aparente na narrativa, como em: “Na quinta década havia começado a imaginar o que era a velhice quando notei os primeiros ocos da memória. Revirava a casa buscando meus óculos até descobrir que os estava usando, ou entrava com eles no chuveiro, ou punha os de leitura sem tirar os de ver de longe. Um dia tomei duas vezes o café da manhã porque me esqueci da primeira, e aprendi a reconhecer o alarme de meus amigos quando não se atreviam a me lembrar que estava contando a mesma história que havia contado na semana anterior. Naquele tempo tinha na memória uma lista de rostos conhecidos e outra com os nomes de cada um, mas no momento de cumprimentar não conseguia que as caras coincidissem com os nomes. Minha idade sexual não me preocupou nunca, porque meus poderes não dependiam tanto de mim como delas, e quando querem elas sabem o como e o porquê. Hoje em dia dou risada dos rapazes de oitenta que consultam o médico assustados por causa desses sobressaltos, sem saber que nos noventa são piores, mas já não importam: são os riscos de estar vivo. Em compensação, é um triunfo da vida que a memória dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas raras vezes falhe para as que de verdade nos interessam. Cícero ilustrou isso de uma penada: Não há ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro.”

O narrador é culto e ouve Debussy e Wagner. Ele conta com a ajuda de Rosa Cabarcas, sua amiga e dona do Bordel, para que arrume a sua virgem. Ela arruma Delgadina (nome atribuído pelo narrador), a virgem de 14 anos que trabalha como pregadora de botões em uma fábrica. Começa aqui uma história de amor. Ele muda seus hábitos, desmistifica o amor nas suas crônicas dominicais, e atinge sentimentos que até então pensava estarem adormecidos (ou inexistentes, dada a quantidade de mulheres com quem se relacionou): uma paixão avassaladora, um amor tenro e delicado. Ele se dá conta que o amor é isso, coisas simples sentidas por coração simples. É ler para sua amada O Pequeno Príncipe, por exemplo.

Rosa Cabarcas é responsável por uma das maiores reflexões no livro, que pra mim foi a grande redenção do autor, onde ela enfatiza para o narrador a importância de relacionar-se com alguém com amor: “Olhou-me nos olhos, mediu minha reação ao que acabava de me contar, e disse: Então, vá correndo procurar essa pobre criatura mesmo que seja verdade o que dizem os seus ciúmes, não importa, o que você viveu ninguém rouba. Mas, isso sim, sem romanticismos de avô. Acorde a menina, fode ela até pelas orelhas com essa pica de burro com que o diabo premiou você pela sua covardia e mesquinhez. De verdade, terminou ela com a alma: não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor.”

Na verdade o sexo entre o ancião e sua jovem não se efetiva, a exemplo do clássico que li quando mais nova, escrito pelo autor japonês Yasunari Kawabata em A Casa das Belas Adormecidas, o qual é citado na epígrafe de Memórias de Minhas Putas Tristes.

Contrariando o que minha mãe sempre disse, fica aqui o registro da vontade de ler outros livros de Gabriel Garcia Marquez.

Destaques:

[1] “O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança.”

[2] “Passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma para alguém, se veste e se perfuma para alguém, e eu nunca tinha tido para quem.”

[3] “Nos idos de março encontrei uma frase sinistra que o autor atribui a Júlio César: É impossível não acabar sendo do jeito que os outros acreditam que você é.

[4] “Tornei-me de lágrima fácil. Qualquer sentimento que tivesse algo a ver com a ternura me causava um nó na garganta que nem sempre conseguia dominar, e pensei em renunciar ao prazer solitário de velar o sono de Delgadina, nem tanto pela incerteza da minha morte como pela dor de imaginá-la sem mim pelo resto da sua vida.”

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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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