A Montanha Mágica

Autor: Thomas Mann
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2000
Edição: 2
Páginas: 986
Tradução: Herbert Caro
Original:  Der Zauberberg
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Hans Cartop é um jovem engenheiro naval abastado que vai visitar seu primo Joachim Ziemsse, enfermo em um sanatório nos Alpes Suíços. Sua ideia é sair de Davoz-Platz em Hamburgo e estender sua estadia por no máximo três semanas. O sanatório é uma clínica de repouso com o objetivo de tratar doenças respiratórios. É importante não confundir com manicômio ou hospícios.

Castorp é órfão, sua mãe morreu de embolia e seu pai de pneumonia e por isso, provavelmente a chance hereditária de ter alguma enfermidade é bastante alta. Ele descobre que tem uma mancha no pulmão e duzentas páginas depois, acabamos descobrindo que ele está com tuberculose – que na época, era uma doença comum na Europa.

Pelo que pesquisei antes de ler este livro, Mann começou a escrevê-lo em 1912, e por conta da Primeira Guerra Mundial teve que postergar o processo de escrita, sendo este motivo então a grande influência histórica que há no livro, apesar dos lapsos atemporais da narrativa. Ele terminaria 12 anos depois, e a reflexão do contexto mundial é base para alguns diálogos na obra.

Eu poderia escrever sobre muitas outras coisas que caberiam aqui, mas não me sinto capaz. A leitura que se tornou arrastada para mim, foi finalizada de forma imperativa: questão de honra.

Terminei de ler este livro em Janeiro, mas só hoje, no semana que completo 35 anos, acabei escrevendo sobre ele. Este tomo de quase mil páginas não me afetou da maneira que esperava. A expectativa da leitura foi muito alta em relação ao que eu achei dela. Ainda acho que não amadureci para ler Thomas Mann.

[1] Era comovente ver como Hans Castorp se esforçava por mostrar-se cortês e dominar a sonolência. Sentia-se irritado pelo fato de estar tão pouco apresentável, e com a desconfiada soberba peculiar aos jovens, via no sorriso e na atitude confortante do médico apenas sinais de ironia indulgente. Respondeu que passaria três semanas ali, mencionou o seu exame e acrescentou que, graças a Deus, gozava a mais perfeita saúde. – Será? – perguntou o Dr. Krokowski, avançando a cabeça obliquamente, como para caçoar, enquanto o seu sorriso se acentuava. – Nesse caso o senhor é um fenômeno digno de ser estudado. Eu, pelo menos, ainda não encontrei um homem de perfeita saúde. Posso perguntar qual é o exame que prestou? – Sou engenheiro, doutor – comunicou Hans Castorp com dignidade e modéstia. – Ah, engenheiro! – E o sorriso do Dr. Krokowski por assim dizer se retraiu, diminuindo momentaneamente em força e cordialidade. – Uma profissão excelente! De maneira que o senhor não pretende receber aqui nenhuma assistência médica, nem de ordem física nem psíquica?

[2] Que é o tempo? Um mistério: é imaterial e – onipotente. É uma condição do mundo exterior; é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha. Mas deixaria de haver tempo se não houvesse movimento? Não haveria movimento sem o tempo? É inútil perguntar. É o tempo uma função do espaço? Ou vice-versa? Ou são ambos idênticos? Não adianta prosseguir perguntando. O tempo é ativo, tem caráter verbal, “traz consigo”. Que é que traz consigo? A transformação. O Agora não é o Então; o Aqui é diferente do Ali; pois entre ambos se intercala o movimento. Mas, visto ser circular e fechar-se sobre si mesmo o movimento pelo. qual se mede o tempo, trata-se de um movimento e de uma transformação que quase poderiam ser qualificados de repouso e de imobilidade: o Então repete-se constantemente no Agora, e o Ali repete-se no Aqui. Como, por outro lado, nem sequer os mais desesperados esforços nos podem fazer imaginar um tempo finito ou um espaço limitado, decidimo-nos a configurar eternos e infinitos o tempo e o espaço, evidentemente na esperança de obter dessa forma um resultado, senão perfeito, ao menos melhor.

[3] Os sábios da Idade Média afirmavam que o tempo era uma ilusão, que seu curso, entre causa e efeito, não passava do produto de um dispositivo dos nossos sentidos, e que o verdadeiro ser das coisas era um presente imutável. Terá passeado à beira-mar aquele doutor que foi o primeiro a conceber esse pensamento, saboreando nos seus lábios a leve amargura da eternidade? Seja como for, repetimos que aqui se falou de liberdades tais como a gente se permite nas férias, de fantasias inspiradas pelo ócio da vida, e das quais o espírito decente se farta tão depressa como um homem forte, do repouso na areia cálida. Criticar os meios e as formas do conhecimento humano, pôr em dúvida a sua validade objetiva, seria absurdo, desprezível e hostil, se tal atitude se baseasse numa outra intenção além da de designar à nossa razão limites que ela não pode transpor sem incorrer em negligência para com suas próprias funções.

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Melhores Livros Lidos em 2017

Relendo minha lista de melhores livros lidos em 2016, vi que no ano passado eu falava do meu novo departamento e que os percalços da vida haviam me tirado o ânimo do jiu jitsu. As coisas mudaram. Neste ano de 2017, tenho muito a agradecer. Pela minha saúde e pela dos meus familiares e amigos; pelo meu trabalho (ah, eu mudei de departamento e cargo de novo); pelo jiu jitsu, que voltou com tudo e agora que ganhei a faixa roxa sigo no sonho de ser black belt antes dos 40 anos; pela minha primeira sobrinha, a Maria, que chegou com saúde alegrando a vida dos meus pais e da minha avó, que do alto de seus 85 conta com 2 filhos, 5 netos e 4 bisnetos. Por conhecer o Chile e retornar pela sexta vez consecutiva aos Estados Unidos (mesmo dizendo que não gosto dos EUA, conheci Miami). Por estarmos todos bem e vivos.

Em 2017, li muito sobre a desilusão da morte quando o destino nos prega uma peça em meio ao caos da natureza. Li bastante sobre histórias reais, de sobrevivência e como você chega à beira do abismo sem se dar conta de que está lá. Também li sobre pessoas e liderança (mas não resenhei).

Confesso que não li tanto quanto achei que leria. Li 18 livros, 4 a menos do que 2016. No meu novo departamento, descobri pessoas que assim como eu, gostam de ler e falar sobre livros. Isso me motivou a procurar novos títulos e reacendeu a necessidade de ler mais clássicos. Em um mundo onde as pessoas só falam de seriados norte americanos da modinha, encontrar pessoas que compartilham a literatura como modo de entretenimento faz um bem danado.

Segue a lista de melhores livros que li em 2017 (e assim como em 2016, Mo Yan entrou na minha lista):

  1. As Rãs – Mo Yan
  2. Na Natureza Selvagem – John Krakauer
  3. Deixado para Morrer – Beck Weathers
  4. Milagre nos Andes – Nando Parrado
  5. Para Educar Crianças Feministas – Chimamanda 
A minha meta para o próximo ano que se inicia é ser uma pessoa melhor, para os que me cercam e para mim mesma e, talvez, não me entristecer toda vez que algo não der certo porque depende do próximo: eu já não crio expectativas, mas crio esperanças (e não, não é a mesma coisa). E em se tratando de livros, gostaria de ler mais clássicos em 2018.Espero vê-los (ainda que ninguém se manifeste) todos bem. Desejo a todos que a leitura seja nosso oxigênio suplementar.

Feliz Ano Novo. Vejo vocês lá.

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Extraordinário

Autor: R.J. Palacio
Editora: Intrínseca
Ano: 2013
Edição: 1
Páginas: 320
Tradução: Rachel Agavino
Original: Wonder

Dedicatória: 

Para Russell, Caleb e Joseph

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Eu sei o que é sentir aquele frio na barriga toda vez que você inicia o ano, principalmente em uma escola nova. Ao longo da minha vida, troquei 6x de escola. Eu sei bem o que é isso. Quando eu era criança, já apanhei na escola. Uma menina que não gostava de mim, só porque eu era oriental, me empurrava. Um outro menino, me chutava todos os dias a canela, porque eu sou oriental, e na década de 80 ser oriental no Rio de Janeiro era tipo ser um ET. Já tive o cabelo puxado na rua, já fui alvo de piadas e quando eu ia pra escola, faziam chacotas com meu olho e ficavam falando “arigatou” como se eu não falasse português. Já escarraram no meu braço e já me xingaram falando que eu não deveria estar na escola de pessoas normais. Tem várias outras coisas que eu poderia citar aqui, mas meu baú de memórias hoje está fechado para balanço.

Mas, também sei que nada do que eu disser aqui vai se comparar ao que o Auggie sofreu, já que ele tem uma doença rara que deixa o rosto um pouco deformado (nossa, odeio essa palavra). Mas este é um livro bacana para as crianças lerem, porque as crianças sabem ser cruéis, mas elas também aprendem a empatia, se você ensinar. O certo é que a dificuldade psicológica que a criança passa, pode ajudá-la na construção da sua fortaleza interior. A infância é a fase mais importante para a determinação do caráter da pessoa na qual ela se transformará.

O livro mostra o ponto de vista dos personagens (família e amigos), sempre em perspectiva sobre a mesma história, a história de August Pullman.

No final de semana assisti Extraordinário, a adaptação para o cinema, e resolvi que deveria escrever hoje, para não esquecer nenhum detalhe. Como já era de se esperar, o filme não consegue passar com a riqueza de detalhes todo o sofrimento de Auggie, mesmo com um elenco muito bom (Sonia Braga é a mãe de Julia Roberts).

Talvez o que eu mais tenha gostado nessa história foi que Auggie prova que “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” e ainda que “gentileza gera gentileza”. E é isso que eu tento levar para a minha vida também.

O livro tem uma boa narrativa, bem YA. A diagramação é bonitinha. Vale à pena a leitura.

… 

[1] “Mamãe se lembra perfeitamente das palavras que a enfermeira sussurrou em seu ouvido quando o médico disse que era provável que eu não sobrevivesse àquela noite. “Todo o que é nascido de Deus vence o mundo.””

[2] “A questão é que, quando eu era pequeno, nunca me incomodava em conhecer outras crianças porque todas elas também eram pequenas. O legal de crianças pequenas é que elas não dizem coisas para tentar magoar você e, mesmo que às vezes façam isso, não sabem o que estão falando. Quando elas crescem, por outro lado… sabem muito bem o que estão dizendo. E isso, definitivamente, não é divertido para mim. Um dos motivos para eu ter deixado meu cabelo crescer no ano passado é que gosto do modo como a franja cobre meus olhos: isso me ajuda a tampar as coisas que não quero ver.

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As Rãs

Autor: Mo Yan
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2015
Edição: 1
Páginas: 496
Tradução: Amilton Reis
Original: 蛙 ()

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Li meu primeiro livro de Mo Yan ano passado. Você pode conferir aqui.

Um livro que conta um pouco, ainda que de forma ficcional a polêmica história do planejamento familiar da República Popular da China, ou em termos mais populares, a política do filho único.

A história se passa na China e é narrada por Corre Corre, por meio de cartas escritas por ele (sob o pseudônimo de Girino) a um professor japonês no período de 2002 a 2008. Este professor é um personagem fundamental para o narrador: ele o incentiva a escrever um livro contando a biografia de sua tia, Wan Coração, que é uma combatente a serviço do Governo Comunista nos entraves do planejamento familiar chinês. Ela é a responsável pelos partos e abortos das mulheres da comunidade e das proximidades.

Na província de Corre Corre, há uma tradição muito peculiar: as pessoas têm nomes de órgãos e partes do corpo. Corre Corre é o apelido de Wan Perna (Wan é seu sobrenome). Há nomes muito engraçados como Chen Sobrancelha, Chen Nariz, Wang Pé, Yuan Bochecha, Chen Testa entre outros. Fico pensando no meu nome e cheguei à conclusão que meus pais certamente me dariam o nome de Ji Cabeça.

Em meados da década de 60, Corre Corre conta um episódio muito exótico, creio que até mesmo para os chineses: na escola, devido o forte cenário de fome na qual o país se encontrava durante o período controlado por Mao, ele e as crianças da província comem carvão que encontraram em uma mina. Ele descreve a cena como se as crianças estivessem comendo uma iguaria; eles comem com prazer se sujando de preto e branqueando os dentes – este episódio é relembrado por ele em algumas passagens do livro posteriormente.

As famílias dos camponeses podiam ter mais de um filho se a primeira criança fosse menina. Mas a regra era válida apenas depois que ela completasse oito anos. Em se tratando de uma segunda menina, o casal não poderia ter mais um terceiro filho. Era o papel da tia de fazer o aborto das crianças ilegais, bem como realizar a operação de vasectomia nos homens, para garantir o cumprimento da lei. Ao longo da minha vida, conheci muitas pessoas da minha idade que não tinham irmãos – que tristeza deve ser você não crescer com alguém para dividir as suas memórias da infância. O livro possui passagens decapitadoras sobre o sofrimento das mulheres chinesas (que algumas autoras como Adeline Yen Mah e Xinran já haviam contado em seus livros, respectivamente “Cinderela Chinesa” e “As Boas Mulheres da China”- livros que li há alguns anos atrás).

Este livro me trouxe muitas lembranças e também reflexões. Da infância com as inúmeras superstições chinesas, as histórias sobre as pálpebras dos chineses e aqui me encaixo também, já que não tenho essa pálpebra dupla, que foi me passado pelo meu avô e pelo meu pai e que por ironia do destino, deve acabar em mim, já que infeliz e provavelmente não terei filhos e minha irmã tem pálpebra dupla.

Não vou conseguir explicar por que este foi o melhor livro que li em 2017 (que está acabando e sei que não conseguirei ler outro tão bom quanto). Mo Yan é frequentemente comparado à Gabriel Garcia Márquez por causa do realismo fantástico que dedica em seus livros e eu sei que, apesar de tudo o que foi descrito no livro, não será nada comparado ao sofrimento das milhares de famílias chinesas.

[1] “O feng shui da sede da nossa comuna também não é bom”, prosseguiu Yuan. “Desde sempre a porta principal de um yamen fica voltada para o sul, mas na nossa comuna a porta principal dá para o norte, bem na direção do abatedouro, o dia inteiro tem facas se banhando em sangue, carnes sendo retalhadas, a atmosfera de carnificina é muito pesada. Quando fui dizer isso lá na sede, falaram que eu estou envolvido com superstições feudais, por pouco não me prenderam. E viram o que aconteceu? O velho secretário Qin Shan está com um lado do corpo paralisado, o irmão mais novo dele é um biruta de marca maior. Qiu, o secretário novo, foi com mais de uma dúzia de pessoas fazer uma inspeção no Sul, sofreram um acidente de trânsito e, entre mortos e feridos, praticamente não sobrou ninguém para contar a história. Feng shui é coisa séria, não adianta você bancar o durão, por mais durão que seja, não será mais que o imperador, não é? E até o imperador devia estar atento ao feng shui…” “Vamos sentar!”, eu disse enquanto dava um tapinha em Yuan. “Mestre, o feng shui é importante, mas comer e beber também são muito importantes.” “Se não mudarem a posição da porta principal da sede da comuna, alguém ainda vai enlouquecer ali, ainda vai acontecer algo muito ruim”, disse Yuan. “Quem não acredita em mim que espere para ver!”

[2] Só estou desabafando com você, que é uma pessoa da família. Sou leal e devotada ao Partido Comunista, nem tudo aquilo que passei na Revolução Cultural conseguiu me abalar, quanto menos agora! O controle de natalidade não pode deixar de ser feito. Se liberar os nascimentos, em um ano serão trinta milhões, em dez anos, trezentos milhões, em mais cinquenta anos, a Terra vai ser esmagada pelos chineses, por isso é preciso baixar a taxa de natalidade a todo custo, é uma contribuição dos chineses para toda a humanidade!”

[3] “Yanyan se parece com você, tem a pálpebra sem dobra, eu tenho a pálpebra com dobrinha.” “Pois é, ela teria melhor sorte se parecesse mais com você, mais bonita que eu.” “Dizem que, na maioria das vezes, a filha se parece com o pai, e o filho se parece com a mãe.”

[4] Eu dava palmadinhas nas costas da Leoazinha e espiava minha tia de canto de olho. Ela ora baixava a cabeça e fitava o chão, ora sorria. Em que estaria pensando? De repente lembrei que ela contava quarenta e sete anos, sua juventude havia terminado fazia tempo, agora andava pela meia-idade, mas seu rosto, marcado pela vida, já mostrava a desolação da velhice. Me lembrei do que dizia minha mãe: “A mulher nasce para quê? A mulher, no fim das contas, nasce é para ter filho. O renome de uma mulher vem de seus filhos, a dignidade de uma mulher vem de seus filhos, a felicidade e o orgulho de uma mulher também vêm de seus filhos. Mulher sem filho é uma angústia, mulher sem filho não pode se considerar completa. Além do mais, mulher sem filho fica com o coração duro, envelhece mais rápido”. Quando dizia essas coisas, minha mãe se referia a minha tia, mas nunca falou nada na frente dela. Será que o envelhecimento da minha tia tem a ver com o fato de ela não ter filho? Ela já está com quarenta e sete anos, caso se apressasse para casar, ainda teria condições de gerar um filho? E, afinal de contas, onde está o homem que poderia ser o marido da minha tia?

[5] Lembrei a minha esposa que ela não podia agir como avó-loba ao ver bebês encantadores. “As crianças de hoje são tesouros de seus pais”, eu disse, “você ficou olhando para o bebê e nem percebeu a cara feia do pai.” Leoazinha se sentiu injustiçada, começou a xingar os ricos que tinham filhos sem querer saber das cotas de natalidade, e os homens e mulheres casados com estrangeiros que produziam filhos numa corrida contra o tempo. Em seguida, teve pena de si mesma, arrependeu-se por trabalhar com minha tia na rígida e até mesmo cruel execução da política de planejamento familiar, fez tantos abortos, violou os princípios celestiais, e agora o céu a punia impedindo-a de ter um filho. Por fim, desejou que eu me casasse com uma mulher estrangeira e tivesse um monte de filhos mestiços. “Corre Corre”, disse ela, “não vou ficar com ciúmes, nem um pingo de ciúmes, se você se casar com uma estrangeira. Tenham filhos à vontade, quantos conseguirem. Depois que nascerem me deem para eu cuidar.” Nesse momento seus olhos se encheram de lágrimas, sua respiração ficou mais rápida, seus peitos redondos começaram a arfar, mal se contendo de tanto amor maternal. Se lhe desse um bebê, eu não duvido nada que jorraria leite.

[6] Se tem uma coisa que aprendi com todos os partos que eu fiz”, minha tia continuou, “é o seguinte: a índole de uma pessoa depende menos da educação e mais da genética. Podem criticar minha teoria de classes por consanguinidade, mas foi o que a prática me ensinou. O descendente de uma pessoa má como Pepino pode até crescer num templo, mas vai ser um monge tarado. Por mais que eu sinta pena de Wang Xiaomei, não vou tentar convencê-la, não posso deixar Pepino se safar tão fácil, mesmo que acrescente a este mundo um monge tarado. No fim, ainda acabei fazendo o aborto de Wang Xiaomei.

[7] “Na verdade, não há por que ter medo de anfíbios, eles têm o mesmo ancestral do homem”, ela disse. “O girino tem a mesma forma do espermatozoide e o óvulo humano também não difere muito de um ovo de rã. Além disso, já viu um feto com menos de três meses? Tem uma cauda comprida, igualzinho aos anfíbios na fase da metamorfose.” Olhei para ela ainda mais espantado. Ela parecia recitar de cor: “Por que a palavra ‘wa’ pode significar tanto ‘rã’ como ‘bebê’? Por que o choro de um bebê que saiu do ventre da mãe é parecido com o coaxo de uma rã? Por que os bonecos de barro da nossa terra muitas vezes têm uma rã no colo? E por que a deusa criadora da humanidade se chama Nü Wa? Tudo isso indica que o ancestral dos seres humanos foi uma grande rã, o homem evoluiu da rã. É totalmente errada a teoria de que o homem veio do macaco…”.

[8] “Tio”, ele continuou, “não acho certo pessoas ilustres como o senhor não terem filho homem, isso é um crime, sabe? Como disse Confúcio: ‘Há três condutas não filiais, a pior delas é não gerar descendentes…’.”

[9] “Enquanto nada acontece, seja medroso como um rato; mas quando algo acontecer, fique valente como um tigre.” “Se não é desgraça, é felicidade; mas se é desgraça, não há como fugir.” Foi o que meu pai me ensinou. Gente velha adora provérbios.

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Bonsai

Bonsai
Autor: Alejandro Zambras
Editora: Cosac Naify
Ano: 2012
Edição: 1
Páginas: 93
Tradução: Josely Vianna Baptista
Original: Bonsái

Dedicatória:
Para Alhelí

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Cheguei atrasada a Alejandro Zambra.

Neste livro de estreia do chileno Alejandro Zambra no ramo da prosa, conhecemos o fim da história de amor entre duas pessoas: Julio e Emilia. Zambra relata em forma de prosa bem escrita o breve romance entre eles, mas começa do fim, não sei se porque queria acabar com todas as expectativas de um final feliz ou se porque queria introduzir, ainda que de forma perturbadora, e aguçar todos os sentidos do leitor. “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emília” – é a abertura que dita, sem precedentes temporais, o que acontecerá nas próximas páginas. A semelhança do bonsai, que dá título ao livro com o término do relacionamento é que ambos, mal cuidados, morrem.

Referências de metaliteratura aparecem, principalmente no início da relação do casal; talvez por que no começo de qualquer interesse humano você tenha a necessidade de expressar-se com mais desenvoltura intelectual para impressionar o outro (para os que gostam de literatura, principalmente), cabendo até a falácia de ambos, que mentiram ao afirmar que leram “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust. No entanto, em verdade, lêem juntos na cama Nabokov, Flaubert Capote entre outros clássicos. É a leitura do conto de Tantalia de Macedonio Fernandez que colabora para o entendimento de que a dupla está fadada ao fracasso: um casal que compra um bonsai percebe que o término da relação está atrelado à morte de da planta, que sem os cuidados corretos, com a delicadeza e sensibilidade que um bonsai requer, morrerá por falta de manutenção. Em uma vã tentativa de pular o destino, eles o perdem propositalmente em meio a várias outras plantas, para evitar presenciar sua morte. Mas isso não foi o suficiente, pois veio a tristeza de perder o bonsai que os unia.

No término da leitura de Tantalia, eles entendem que precisam terminar. É a literatura como fio condutor da reflexão do fim de um relacionamento.

Um livro de narrativa rica, mas com uma história bastante crua, que me leva a refletir no momento onde parei de prestar atenção no meu eu interior. Diferente de Julio e Emilia, demorei a perceber (ou talvez aceitar) que o fim de um relacionamento deve ser podado pela raiz, tal como um bonsai.

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Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto

Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto
Author: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017
Edição: 1
Páginas: 96
Tradução: Denise Bottmann

Original: Dear Ijeawele, or a Feminist Manifesto in Fifteen Suggestions

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Em Março deste ano, li pela primeira vez Chimamanda em “Sejamos Todos Feministas”. Foi meu primeiro contato com a autora, apesar de já a conhecer de nome.

Volto a ela agora em Outubro, mas desta vez ela escreve para crianças. Sim, para crianças.

Apesar de eu nunca ter sido feminista (estranho dizer isso, né?), li e concordei com tudo o que Chimamanda diz neste livro epistolar, que escreve em resposta a uma amiga que lhe pede conselhos para a filha recém nascida. São 15 conselhos escritos de forma simples, direta e com muita clareza sobre esta questão de gênero.

Além do exercício que este livro nos traz, a auto-reflexão do papel da mulher nos dias atuais, é também um guia, ainda que muito particular de uma das maiores escritoras da atualidade sobre o que é ser mulher em um mundo tão misógino.

Talvez eu não seja feminista por entender que cansei das piadinhas machistas desde a escola técnica até o mestrado. No mercado de trabalho, no tatame e na vida. Ser uma mulher mais capaz intelectualmente do que muitos homens não faz, infelizmente, você ser mais apta e ensurdecer para a hostilidade do sexismo.

Agora que ganhei minha primeira sobrinha, será um livro que ela lerá assim que conseguir entender o que é o mundo. Quero deixar para ela um legado de livros bem escritos, onde Chimamanda certamente figurará na lista. Já recomendei para uma amiga de infância para que ela compre para sua filha.

Uma leitura rápida, mas que vale muito. Viva Chimamanda.

Destaques:

[1]Porque você é menina” nunca é razão para nada. Jamais.

[2] “Os livros vão ajudá-la a entender e questionar o mundo, vão ajudá-la a se expressar, vão ajudá-la em tudo que ela quiser ser — chefs, cientistas, artistas, todo mundo se beneficia das habilidades que a leitura traz”
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O Inventário das Coisas Ausentes

Author: Carola Saavedra
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Edição: 1
Páginas: 128

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Não há dúvidas de que este livro é realmente lindo. A capa e principalmente a composição da estrutura narrativa – apesar de não ter conseguido apreciar tanto quanto gostaria do livro – são de saltar aos olhos.

Carola Saavedra é uma escritora chilena-brasileira contemporânea e esteve figurando na aclamada Granta como uma dos vinte melhores jovens escritores brasileiros.

Neste livro, a metalinguagem de Carola me confundiu. Logo eu, que sempre fui fã de metalinguagem (com Ricardo Lísias, Machado e tantos outros!), me perdi em um livro que apesar de gostar, não entendi. E aí recomeço todo o drama de quem, de início precisa entender que nem sempre um livro que a gente não entende é ruim.

Saavedra divide o livro em duas partes, a primeira sendo um “Caderno de Anotações” a segunda, “Ficção”. Na primeira parte, o narrador conta, sob uma ótica nada imparcial, a história de Nina, uma chilena de 23 anos, que apesar de ter um pai ateu, convive com seu avô fanático religioso. É para o narrador da história que Nina entrega 17 diários, relatando sua vida nos últimos 5 anos.

E este é o mote para a segunda parte, do “livro dentro do livro”.

Como inventariar o ausente? Preciso reler este livro.

Destaques:

[1] Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas ficção.

[2] Nina acorda às cinco da manhã, toma um banho de água fria e sai para correr, sozinha pela beira da praia, como se treinasse para uma maratona, dez quilômetros todos os dias, ela contando os minutos, o pulso, as batidas do coração. Uma angústia que não acaba. Por mais que Nina continue, implacável, o dia amanhecendo todos os dias, o ar fresco da manhã e as pessoas que pouco a pouco vão surgindo na paisagem, a angústia não diminui. Às vezes eu acordo, vejo a luz do banheiro, ou a camisola sobre a cadeira, ou uma sombra que atravessa o quarto, os olhos fechados até ela sair, às vezes distraído, repito em voz baixa, como se falasse para mim mesmo, como se falasse para ninguém, Nina, por mais que você corra e se molde e se canse, não há disciplina para o tempo que passa.

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