As Rãs

Autor: Mo Yan
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2015
Edição: 1
Páginas: 496
Tradução: Amilton Reis
Original: 蛙 ()

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Li meu primeiro livro de Mo Yan ano passado. Você pode conferir aqui.

Um livro que conta um pouco, ainda que de forma ficcional a polêmica história do planejamento familiar da República Popular da China, ou em termos mais populares, a política do filho único.

A história se passa na China e é narrada por Corre Corre, por meio de cartas escritas por ele (sob o pseudônimo de Girino) a um professor japonês no período de 2002 a 2008. Este professor é um personagem fundamental para o narrador: ele o incentiva a escrever um livro contando a biografia de sua tia, Wan Coração, que é uma combatente a serviço do Governo Comunista nos entraves do planejamento familiar chinês. Ela é a responsável pelos partos e abortos das mulheres da comunidade e das proximidades.

Na província de Corre Corre, há uma tradição muito peculiar: as pessoas têm nomes de órgãos e partes do corpo. Corre Corre é o apelido de Wan Perna (Wan é seu sobrenome). Há nomes muito engraçados como Chen Sobrancelha, Chen Nariz, Wang Pé, Yuan Bochecha, Chen Testa entre outros. Fico pensando no meu nome e cheguei à conclusão que meus pais certamente me dariam o nome de Ji Cabeça.

Em meados da década de 60, Corre Corre conta um episódio muito exótico, creio que até mesmo para os chineses: na escola, devido o forte cenário de fome na qual o país se encontrava durante o período controlado por Mao, ele e as crianças da província comem carvão que encontraram em uma mina. Ele descreve a cena como se as crianças estivessem comendo uma iguaria; eles comem com prazer se sujando de preto e branqueando os dentes – este episódio é relembrado por ele em algumas passagens do livro posteriormente.

As famílias dos camponeses podiam ter mais de um filho se a primeira criança fosse menina. Mas a regra era válida apenas depois que ela completasse oito anos. Em se tratando de uma segunda menina, o casal não poderia ter mais um terceiro filho. Era o papel da tia de fazer o aborto das crianças ilegais, bem como realizar a operação de vasectomia nos homens, para garantir o cumprimento da lei. Ao longo da minha vida, conheci muitas pessoas da minha idade que não tinham irmãos – que tristeza deve ser você não crescer com alguém para dividir as suas memórias da infância. O livro possui passagens decapitadoras sobre o sofrimento das mulheres chinesas (que algumas autoras como Adeline Yen Mah e Xinran já haviam contado em seus livros, respectivamente “Cinderela Chinesa” e “As Boas Mulheres da China”- livros que li há alguns anos atrás).

Este livro me trouxe muitas lembranças e também reflexões. Da infância com as inúmeras superstições chinesas, as histórias sobre as pálpebras dos chineses e aqui me encaixo também, já que não tenho essa pálpebra dupla, que foi me passado pelo meu avô e pelo meu pai e que por ironia do destino, deve acabar em mim, já que infeliz e provavelmente não terei filhos e minha irmã tem pálpebra dupla.

Não vou conseguir explicar por que este foi o melhor livro que li em 2017 (que está acabando e sei que não conseguirei ler outro tão bom quanto). Mo Yan é frequentemente comparado à Gabriel Garcia Márquez por causa do realismo fantástico que dedica em seus livros e eu sei que, apesar de tudo o que foi descrito no livro, não será nada comparado ao sofrimento das milhares de famílias chinesas.

[1] “O feng shui da sede da nossa comuna também não é bom”, prosseguiu Yuan. “Desde sempre a porta principal de um yamen fica voltada para o sul, mas na nossa comuna a porta principal dá para o norte, bem na direção do abatedouro, o dia inteiro tem facas se banhando em sangue, carnes sendo retalhadas, a atmosfera de carnificina é muito pesada. Quando fui dizer isso lá na sede, falaram que eu estou envolvido com superstições feudais, por pouco não me prenderam. E viram o que aconteceu? O velho secretário Qin Shan está com um lado do corpo paralisado, o irmão mais novo dele é um biruta de marca maior. Qiu, o secretário novo, foi com mais de uma dúzia de pessoas fazer uma inspeção no Sul, sofreram um acidente de trânsito e, entre mortos e feridos, praticamente não sobrou ninguém para contar a história. Feng shui é coisa séria, não adianta você bancar o durão, por mais durão que seja, não será mais que o imperador, não é? E até o imperador devia estar atento ao feng shui…” “Vamos sentar!”, eu disse enquanto dava um tapinha em Yuan. “Mestre, o feng shui é importante, mas comer e beber também são muito importantes.” “Se não mudarem a posição da porta principal da sede da comuna, alguém ainda vai enlouquecer ali, ainda vai acontecer algo muito ruim”, disse Yuan. “Quem não acredita em mim que espere para ver!”

[2] Só estou desabafando com você, que é uma pessoa da família. Sou leal e devotada ao Partido Comunista, nem tudo aquilo que passei na Revolução Cultural conseguiu me abalar, quanto menos agora! O controle de natalidade não pode deixar de ser feito. Se liberar os nascimentos, em um ano serão trinta milhões, em dez anos, trezentos milhões, em mais cinquenta anos, a Terra vai ser esmagada pelos chineses, por isso é preciso baixar a taxa de natalidade a todo custo, é uma contribuição dos chineses para toda a humanidade!”

[3] “Yanyan se parece com você, tem a pálpebra sem dobra, eu tenho a pálpebra com dobrinha.” “Pois é, ela teria melhor sorte se parecesse mais com você, mais bonita que eu.” “Dizem que, na maioria das vezes, a filha se parece com o pai, e o filho se parece com a mãe.”

[4] Eu dava palmadinhas nas costas da Leoazinha e espiava minha tia de canto de olho. Ela ora baixava a cabeça e fitava o chão, ora sorria. Em que estaria pensando? De repente lembrei que ela contava quarenta e sete anos, sua juventude havia terminado fazia tempo, agora andava pela meia-idade, mas seu rosto, marcado pela vida, já mostrava a desolação da velhice. Me lembrei do que dizia minha mãe: “A mulher nasce para quê? A mulher, no fim das contas, nasce é para ter filho. O renome de uma mulher vem de seus filhos, a dignidade de uma mulher vem de seus filhos, a felicidade e o orgulho de uma mulher também vêm de seus filhos. Mulher sem filho é uma angústia, mulher sem filho não pode se considerar completa. Além do mais, mulher sem filho fica com o coração duro, envelhece mais rápido”. Quando dizia essas coisas, minha mãe se referia a minha tia, mas nunca falou nada na frente dela. Será que o envelhecimento da minha tia tem a ver com o fato de ela não ter filho? Ela já está com quarenta e sete anos, caso se apressasse para casar, ainda teria condições de gerar um filho? E, afinal de contas, onde está o homem que poderia ser o marido da minha tia?

[5] Lembrei a minha esposa que ela não podia agir como avó-loba ao ver bebês encantadores. “As crianças de hoje são tesouros de seus pais”, eu disse, “você ficou olhando para o bebê e nem percebeu a cara feia do pai.” Leoazinha se sentiu injustiçada, começou a xingar os ricos que tinham filhos sem querer saber das cotas de natalidade, e os homens e mulheres casados com estrangeiros que produziam filhos numa corrida contra o tempo. Em seguida, teve pena de si mesma, arrependeu-se por trabalhar com minha tia na rígida e até mesmo cruel execução da política de planejamento familiar, fez tantos abortos, violou os princípios celestiais, e agora o céu a punia impedindo-a de ter um filho. Por fim, desejou que eu me casasse com uma mulher estrangeira e tivesse um monte de filhos mestiços. “Corre Corre”, disse ela, “não vou ficar com ciúmes, nem um pingo de ciúmes, se você se casar com uma estrangeira. Tenham filhos à vontade, quantos conseguirem. Depois que nascerem me deem para eu cuidar.” Nesse momento seus olhos se encheram de lágrimas, sua respiração ficou mais rápida, seus peitos redondos começaram a arfar, mal se contendo de tanto amor maternal. Se lhe desse um bebê, eu não duvido nada que jorraria leite.

[6] Se tem uma coisa que aprendi com todos os partos que eu fiz”, minha tia continuou, “é o seguinte: a índole de uma pessoa depende menos da educação e mais da genética. Podem criticar minha teoria de classes por consanguinidade, mas foi o que a prática me ensinou. O descendente de uma pessoa má como Pepino pode até crescer num templo, mas vai ser um monge tarado. Por mais que eu sinta pena de Wang Xiaomei, não vou tentar convencê-la, não posso deixar Pepino se safar tão fácil, mesmo que acrescente a este mundo um monge tarado. No fim, ainda acabei fazendo o aborto de Wang Xiaomei.

[7] “Na verdade, não há por que ter medo de anfíbios, eles têm o mesmo ancestral do homem”, ela disse. “O girino tem a mesma forma do espermatozoide e o óvulo humano também não difere muito de um ovo de rã. Além disso, já viu um feto com menos de três meses? Tem uma cauda comprida, igualzinho aos anfíbios na fase da metamorfose.” Olhei para ela ainda mais espantado. Ela parecia recitar de cor: “Por que a palavra ‘wa’ pode significar tanto ‘rã’ como ‘bebê’? Por que o choro de um bebê que saiu do ventre da mãe é parecido com o coaxo de uma rã? Por que os bonecos de barro da nossa terra muitas vezes têm uma rã no colo? E por que a deusa criadora da humanidade se chama Nü Wa? Tudo isso indica que o ancestral dos seres humanos foi uma grande rã, o homem evoluiu da rã. É totalmente errada a teoria de que o homem veio do macaco…”.

[8] “Tio”, ele continuou, “não acho certo pessoas ilustres como o senhor não terem filho homem, isso é um crime, sabe? Como disse Confúcio: ‘Há três condutas não filiais, a pior delas é não gerar descendentes…’.”

[9] “Enquanto nada acontece, seja medroso como um rato; mas quando algo acontecer, fique valente como um tigre.” “Se não é desgraça, é felicidade; mas se é desgraça, não há como fugir.” Foi o que meu pai me ensinou. Gente velha adora provérbios.

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Bonsai

Bonsai
Autor: Alejandro Zambras
Editora: Cosac Naify
Ano: 2012
Edição: 1
Páginas: 93
Tradução: Josely Vianna Baptista
Original: Bonsái

Dedicatória:
Para Alhelí

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Cheguei atrasada a Alejandro Zambra.

Neste livro de estreia do chileno Alejandro Zambra no ramo da prosa, conhecemos o fim da história de amor entre duas pessoas: Julio e Emilia. Zambra relata em forma de prosa bem escrita o breve romance entre eles, mas começa do fim, não sei se porque queria acabar com todas as expectativas de um final feliz ou se porque queria introduzir, ainda que de forma perturbadora, e aguçar todos os sentidos do leitor. “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emília” – é a abertura que dita, sem precedentes temporais, o que acontecerá nas próximas páginas. A semelhança do bonsai, que dá título ao livro com o término do relacionamento é que ambos, mal cuidados, morrem.

Referências de metaliteratura aparecem, principalmente no início da relação do casal; talvez por que no começo de qualquer interesse humano você tenha a necessidade de expressar-se com mais desenvoltura intelectual para impressionar o outro (para os que gostam de literatura, principalmente), cabendo até a falácia de ambos, que mentiram ao afirmar que leram “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust. No entanto, em verdade, lêem juntos na cama Nabokov, Flaubert Capote entre outros clássicos. É a leitura do conto de Tantalia de Macedonio Fernandez que colabora para o entendimento de que a dupla está fadada ao fracasso: um casal que compra um bonsai percebe que o término da relação está atrelado à morte de da planta, que sem os cuidados corretos, com a delicadeza e sensibilidade que um bonsai requer, morrerá por falta de manutenção. Em uma vã tentativa de pular o destino, eles o perdem propositalmente em meio a várias outras plantas, para evitar presenciar sua morte. Mas isso não foi o suficiente, pois veio a tristeza de perder o bonsai que os unia.

No término da leitura de Tantalia, eles entendem que precisam terminar. É a literatura como fio condutor da reflexão do fim de um relacionamento.

Um livro de narrativa rica, mas com uma história bastante crua, que me leva a refletir no momento onde parei de prestar atenção no meu eu interior. Diferente de Julio e Emilia, demorei a perceber (ou talvez aceitar) que o fim de um relacionamento deve ser podado pela raiz, tal como um bonsai.

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Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto

Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto
Author: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017
Edição: 1
Páginas: 96
Tradução: Denise Bottmann

Original: Dear Ijeawele, or a Feminist Manifesto in Fifteen Suggestions

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Em Março deste ano, li pela primeira vez Chimamanda em “Sejamos Todos Feministas”. Foi meu primeiro contato com a autora, apesar de já a conhecer de nome.

Volto a ela agora em Outubro, mas desta vez ela escreve para crianças. Sim, para crianças.

Apesar de eu nunca ter sido feminista (estranho dizer isso, né?), li e concordei com tudo o que Chimamanda diz neste livro epistolar, que escreve em resposta a uma amiga que lhe pede conselhos para a filha recém nascida. São 15 conselhos escritos de forma simples, direta e com muita clareza sobre esta questão de gênero.

Além do exercício que este livro nos traz, a auto-reflexão do papel da mulher nos dias atuais, é também um guia, ainda que muito particular de uma das maiores escritoras da atualidade sobre o que é ser mulher em um mundo tão misógino.

Talvez eu não seja feminista por entender que cansei das piadinhas machistas desde a escola técnica até o mestrado. No mercado de trabalho, no tatame e na vida. Ser uma mulher mais capaz intelectualmente do que muitos homens não faz, infelizmente, você ser mais apta e ensurdecer para a hostilidade do sexismo.

Agora que ganhei minha primeira sobrinha, será um livro que ela lerá assim que conseguir entender o que é o mundo. Quero deixar para ela um legado de livros bem escritos, onde Chimamanda certamente figurará na lista. Já recomendei para uma amiga de infância para que ela compre para sua filha.

Uma leitura rápida, mas que vale muito. Viva Chimamanda.

Destaques:

[1]Porque você é menina” nunca é razão para nada. Jamais.

[2] “Os livros vão ajudá-la a entender e questionar o mundo, vão ajudá-la a se expressar, vão ajudá-la em tudo que ela quiser ser — chefs, cientistas, artistas, todo mundo se beneficia das habilidades que a leitura traz”
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O Inventário das Coisas Ausentes

Author: Carola Saavedra
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Edição: 1
Páginas: 128

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Não há dúvidas de que este livro é realmente lindo. A capa e principalmente a composição da estrutura narrativa – apesar de não ter conseguido apreciar tanto quanto gostaria do livro – são de saltar aos olhos.

Carola Saavedra é uma escritora chilena-brasileira contemporânea e esteve figurando na aclamada Granta como uma dos vinte melhores jovens escritores brasileiros.

Neste livro, a metalinguagem de Carola me confundiu. Logo eu, que sempre fui fã de metalinguagem (com Ricardo Lísias, Machado e tantos outros!), me perdi em um livro que apesar de gostar, não entendi. E aí recomeço todo o drama de quem, de início precisa entender que nem sempre um livro que a gente não entende é ruim.

Saavedra divide o livro em duas partes, a primeira sendo um “Caderno de Anotações” a segunda, “Ficção”. Na primeira parte, o narrador conta, sob uma ótica nada imparcial, a história de Nina, uma chilena de 23 anos, que apesar de ter um pai ateu, convive com seu avô fanático religioso. É para o narrador da história que Nina entrega 17 diários, relatando sua vida nos últimos 5 anos.

E este é o mote para a segunda parte, do “livro dentro do livro”.

Como inventariar o ausente? Preciso reler este livro.

Destaques:

[1] Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas ficção.

[2] Nina acorda às cinco da manhã, toma um banho de água fria e sai para correr, sozinha pela beira da praia, como se treinasse para uma maratona, dez quilômetros todos os dias, ela contando os minutos, o pulso, as batidas do coração. Uma angústia que não acaba. Por mais que Nina continue, implacável, o dia amanhecendo todos os dias, o ar fresco da manhã e as pessoas que pouco a pouco vão surgindo na paisagem, a angústia não diminui. Às vezes eu acordo, vejo a luz do banheiro, ou a camisola sobre a cadeira, ou uma sombra que atravessa o quarto, os olhos fechados até ela sair, às vezes distraído, repito em voz baixa, como se falasse para mim mesmo, como se falasse para ninguém, Nina, por mais que você corra e se molde e se canse, não há disciplina para o tempo que passa.

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TED Talks – O Guia Oficial do TED Para Falar Em Público

Author: Chris Anderson
Editora: Intrínseca
Ano: 2016
Edição: 1
Páginas: 240
Tradução: Renata Guerra
Original: The Official TED Guide To Public Speaking

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As lembranças mais remotas que tenho de apresentação em público remontam os tempos de escola. Apresentei inúmeros trabalhos de biologia em grupo no ensino fundamental (teve um sobre ossos do corpo humano onde tive a brilhante ideia de desenhar e cortar vários ossos para escrever os dados do grupo – talvez a Hellen se lembre disso). Mas certamente a apresentação que mais me marcou foi uma no CEFET. Precisei decorar algumas páginas sobre os mais diversos tipos de diodos em uma disciplina de Eletrônica. Passei uma tarde decorando e repassando o texto com a minha mãe e me senti tão segura, que acho que passei a impressão que eu realmente dominava a matéria. Foi até engraçado ouvir o professor (que se não me falha a memória se chamava Sérgio Cabral) dizer que eu dominava a matéria, sendo que cá entre nós, não era verdade.

Depois tive apresentações na Graduação, no Mestrado, na Pós e claro, no trabalho. Infelizmente, nunca mais consegui repetir o sucesso do dia dos diodos.

Coincidentemente, a Carol disse que havia esta sugestão de livro com técnicas de apresesentação, e acabei lendo. A leitura é bem divertida. Conhecemos algumas histórias de bastidores do TED e sugestões interessantes de palestras (incluindo da Monica Lewinsky!).

O livro é rico no que se refere ao aprendizado da arte de falar em público. Após refletir em como faria esta resenha, acabei optando por não falar nada. É difícil de limitar o que pode ser útil pra você na hora de falar em público. Por isso selecionei algumas passagens e convido você a experimentar a leitura.

Destaques:

[1] O TED começou como uma conferência anual, com palestras nos campos da Tecnologia, do Entretenimento e do Design (daí o nome). Nos últimos anos, porém, o programa se expandiu e passou a cobrir qualquer tópico de interesse público. Os palestrantes procuram difundir suas ideias entre pessoas que não atuam em seu campo, e para isso realizam palestras breves preparadas com todo cuidado. Para nossa satisfação, essa forma de falar em público se mostrou um retumbante sucesso on-line: hoje as Conferências TED contabilizam mais de um bilhão de visualizações por ano.

[2] Quando subiu ao palco, dava para notar que estava nervoso, mas isso só o tornou mais cativante. Ele começou a falar, e a plateia prestou atenção em cada palavra — e sempre que ele sorria a plateia se derretia. Quando acabou, as pessoas simplesmente se levantaram e aplaudiram. O caso de Richard pode incentivar você e todos nós a crer que somos capazes de dar uma palestra decente. Seu objetivo não é ser um Winston Churchill ou um Nelson Mandela. É ser você. Se você é cientista, seja cientista; não tente ser um militante. Se é artista, seja artista; não tente ser um acadêmico. Se é um sujeito comum, não queira simular um impressionante estilo intelectual; seja esse sujeito comum. Você não tem obrigação de fazer uma multidão se pôr de pé com uma oratória notável. Um tom de conversa pode funcionar muito bem. Na verdade, para a maioria das plateias, é bem melhor assim. Se você sabe conversar com um grupo de amigos durante o jantar, também sabe falar em público.

[3] Uma apresentação mais curta não significa de modo algum menos tempo de preparação. Certa vez, perguntaram ao presidente americano Woodrow Wilson quanto tempo ele levava para preparar um discurso, no que ele respondeu: Depende da extensão. Se durar dez minutos, preciso de não menos do que duas semanas para me preparar; se for de meia hora, preciso de uma semana; mas, se eu puder falar o tempo que quiser, não preciso me preparar. Fico pronto na hora. Isso me lembra uma citação famosa, atribuída a vários grandes pensadores e escritores: “Se eu tivesse mais tempo, teria escrito uma carta mais curta.”

[4] Há dois segredos para se revelar um sonho com eficácia: Pinte um quadro nítido da alternativa futura que você almeja. Faça-o de um jeito que outras pessoas também passem a desejar esse futuro.

[5] A finalidade principal dos recursos visuais não deve ser comunicar palavras. A boca do palestrante já faz isso muito bem. A finalidade dos recursos visuais é mostrar aquilo que a boca não mostra tão bem: fotografias, vídeos, animações e dados importantes.

[6] Usada assim, a tela pode explicar num instante o que, de outra forma, tomaria horas. No TED, nosso usuário de recursos visuais preferido é Hans Rosling. Em 2006, ele mostrou uma sequência de gráficos animados que durou 48 segundos. Mas nesses 48 segundos ele transformou o modelo mental que tínhamos do mundo em desenvolvimento. E acontece que não tenho como explicá-los a quem não os viu. Isso exigiria vários parágrafos, e mesmo assim eu não chegaria nem perto do objetivo. A questão é exatamente essa. Era necessário vê-los numa tela. Procure no site do TED “Hans Rosling mostra as melhores estatísticas que você já viu”. (O trecho começa aos 4:05.) Nem todo mundo pode ser um Hans Rosling, mas todo mundo pode se perguntar: “Recursos visuais são indispensáveis para explicar o que eu quero dizer? Se forem, qual é a melhor forma de combiná-los com minhas palavras de modo que a interação seja intensa?”

[7] TRANSIÇÕES Para muitos palestrantes, as transições entre slides constituem uma temida areia movediça. A regra prática é a seguinte: evite quase todas. Shimmer, sparkle, confetti, twirl, clothesline, swirl, cube, scale, swap, swoosh, fire explosions e dropping and bouncing são transições do Keynote. Eu só as uso para criar humor e ironia. São artifícios chamativos e desviam a atenção, que sai das ideias e cai na mecânica do software. Há duas transições de que eu gosto: cut (um corte instantâneo, como na edição de um filme) e dissolve. Não usar nenhuma (ou usar cut) é excelente quando você quer uma resposta instantânea ao clique; e dissolve parece natural, se configurada para um intervalo de, no máximo, meio segundo. Cortar (cut) e dissolver (dissolve) têm dois significados subconscientes: com cortar, você está passando para uma ideia nova, e ao dissolver os dois slides têm alguma relação. Essa regra não é rígida, mas vale. Você pode usar as duas formas de transição na mesma apresentação. Se não houver motivo para transição, não use. Em resumo: a transição nunca deve chamar a atenção.

[8] O maior comunicador corporativo dos últimos tempos, Steve Jobs, não chegou lá apenas com talento. Dedicou horas a cuidadosos ensaios para lançar cada produto importante da Apple. Ele era obcecado pelo detalhe.

[9] Até Bill Gates, um dos homens mais ocupados do mundo, dedica bastante esforço a aprender e ensaiar suas Conferências TED. Já houve um tempo em que ele foi considerado um orador fraco. Levando a sério a preparação, ele deu a volta por cima e ministrou influentes palestras sobre saúde pública, energia e educação.

[10] A economia do conhecimento requer algo diferente. Cada vez mais, o conhecimento especializado, tradicionalmente dominado por seres humanos, vem sendo assumido por computadores. O petróleo não é mais localizado por geólogos, mas por softwares que analisam uma vasta quantidade de dados geológicos em busca de padrões recorrentes. Hoje, os melhores engenheiros civis não precisam calcular à mão as tensões e deformações de um novo edifício; modelos computacionais ocupam-se disso. Praticamente todas as profissões foram afetadas. Eu assisti a uma demonstração do sistema cognitivo IBM Watson. Seu objetivo era diagnosticar um paciente que apresentava seis sintomas específicos. Enquanto médicos coçavam a cabeça e pediam uma série de exames para obter mais dados, o Watson, em poucos segundos, leu quatro mil trabalhos de pesquisa recentes e relevantes, aplicou algoritmos de probabilidade a cada sintoma e concluiu, com 80% de certeza, que o paciente sofria de uma enfermidade rara da qual apenas um dos médicos tinha ouvido falar. Nesse ponto, as pessoas começam a se sentir deprimidas. Começam a fazer perguntas como: “Num mundo em que as máquinas rapidamente se tornam superinteligentes em qualquer tarefa especializada a que as submetemos, para que servem os seres humanos?” É uma pergunta importante. E a resposta dá o que pensar. Para que servem os seres humanos? Os seres humanos servem para ser mais humanos do que jamais fomos. Mais humanos na forma como trabalhamos. Mais humanos naquilo que aprendemos. E mais humanos no modo como dividimos esse saber uns com os outros.

[11] Nosso futuro não será mais assim. Tudo o que puder ser automatizado ou calculado acabará sendo. Bom, nós podemos temer essa situação ou podemos aceitá-la e aproveitar a chance para descobrir um caminho mais rico para uma vida plena. Como será esse caminho? Ninguém sabe ao certo. No entanto, ele provavelmente incluirá: Mais pensamento estratégico sobre sistemas. As máquinas se encarregarão do trabalho pesado, mas nós teremos de definir a melhor forma de fazê-las atuar de forma eficiente umas com as outras. Mais inovação. Diante das imensas possibilidades criadas por um mundo interconectado, quem for capaz de realizar uma inovação genuína terá enormes vantagens. Mais criatividade. Os robôs realizarão muitas atividades que hoje cabem a nós, o que levará a uma explosão na procura de criatividade humana, seja na área de invenções técnicas, design, música ou artes. Mais utilização de valores exclusivamente humanos. Os serviços pessoais florescerão, desde que as qualidades humanas inerentes a eles sejam cultivadas. Será possível criar um barbeiro robótico, mas será que o serviço prestado por ele substituirá a conversa prazerosa de um hábil profissional que às vezes age também como terapeuta? Duvido. O médico do futuro talvez possa solicitar a genialidade do sistema Watson para ajudá-lo em diagnósticos, mas isso deve lhe permitir dedicar mais tempo a compreender de verdade as circunstâncias humanas de seus pacientes. Se uma parte disso tudo se concretizar, provavelmente exigirá um tipo de conhecimento bem diferente daquele que a Era Industrial nos impunha.

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Na Natureza Selvagem

Author: Jon Krakauer
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1998
Edição: 1
Páginas: 216
Tradução: Pedro Maia Soares
Original: Into The Wild

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Quando criança, uma das brincadeiras que minha irmã e eu mais gostávamos era brincar com nossos apontadores. Pode soar estranho, mas nossa mãe comprava apontadores em forma dos mais variados bichinhos para fomentar nossa coleção. Tinha o Mel (um urso marrom com avental e chapéu de cozinheiro), a Yuko (uma onça amarela pintada), a Mitie (uma abelhinha muito simpática: uma verdadeira fauna de apontadores!) e tantos outros. Pegávamos várias caixas de sapatos e construíamos um trailer com vários cômodos (Legos, móveis da Barbie etc) e rodávamos pelo mundo, ensaiando um tipo de vida que queríamos ter.

Explorar o mundo como Chris McCandless. Ter uma alma simples e leve, como a de uma criança.

Assisti ao homônimo filme há alguns meses e fiquei com vontade de entender melhor o que aconteceu. Neste livro, conhecemos a breve história de Chris McCandless, um jovem que aos 22 anos decide chegar até o Alasca, deixando para trás uma casa uma casa abastada, a Faculdade de Direito, carro, família e amigos. A narrativa é feita pelo próprio autor, Jon Krakauer, que decide refazer o caminho de McCandless em sua trajetória rumo ao coração da natureza alasquiana. Krakauer havia escrito um artigo sobre a morte de McCandless para a revista Outside (referência para a comunida outdoor) e decide com a biografia póstuma, dar sequência a uma história fascinante.

A narrativa é bem descrita e conta uma certa riqueza de detalhes que vão além da história de Chris McCandless (ou Alex Supertramp, o senhor de seu destino, como ele mesmo preferia ser chamado). Na biografia, há histórias de outros seres ermitões e ensimesmados (como Gene Rosselini, John Mallon Waterman entre outros) que datam de diferentes períodos com as prováveis justificativas para seus os fins trágicos. Nenhum deles havia tido o nobre pensamento que Chris teve, ao revelar em suas anotações o verdadeiro sentido da vida: “a felicidade só é real quando compartilhada”. O autor teve acesso ainda às cartas enviadas por Chris, depoimentos e seu diário de viagem, que comprovavam com fatos e dados a felicidade que era estar nesta aventura.

Chris precisou fazer trabalhos esporádicos (como trabalhar no Mc Donalds), pegar caronas, acampar na rua ou sob o teto de terceiros e nada disso abalou sua crença que seria a forma correta de chegar ao seu eldorado.

A história de Chris é desconcertante: seu carisma e simplicidade tornam-se contraponto de sua inquietude e ensimesmice. Talvez a relação com seus pais tenha colaborado para que a construção de um espírito livre e transgressor. Com este livro, encontro-me a perguntar até que ponto provar que as intempéries do cotidiano estão relacionadas diretamente com a evolução do ser humano.

Chris morreu em 1992, quando eu tinha 9 anos e estava na minha própria bolha. Hoje se estivesse vivo, teria um pouco menos de 50 anos e com certeza, muitas histórias para contar.

A trilha sonora do filme vale muito à pena (tem Eddie Vedder!). Krakauer já havia aparecido aqui neste blog na história de Beck Weathers em “Deixado para Morrer”. Caso não goste de Eddie Vedder, por favor, leia o livro. Vale muito, muito à pena.

Destaques:

[1] “Você via logo que Alex era inteligente”, reflete Westerberg, acabando seu terceiro drinque. “Lia muito. Usava um monte de palavras pomposas. Acho que parte do que complicou sua vida talvez tenha sido que ele pensava muito. Às vezes fazia força demais para entender o mundo, saber por que certas pessoas eram más com as outras. Um par de vezes tentei lhe dizer que era um erro se aprofundar tanto naquele tipo de coisa, mas Alex empacava. Tinha sempre que saber a resposta certa e absoluta antes de passar para a próxima coisa.”

[2] “Àquela altura, não tínhamos absolutamente nenhuma idéia do que Chris poderia estar tramando. A multa por pedir carona não fazia sentido nenhum. Ele adorava tanto aquele Datsun que eu estava atônito que tivesse abandonado o carro e viajasse a pé. Suponho que não deveria ter me surpreendido. Chris era muito da teoria de que você não deve possuir mais do que pode carregar nas costas numa corrida repentina.”

[3] “Ele me ajudou bastante”, reconhece Burres. “Cuidava da banca quando eu precisava sair, classificou todos os livros, fez muitas vendas. Parecia se divertir realmente com aquilo. Alex era bom nos clássicos: Dickens, H. G. Wells, Mark Twain, Jack London. London era o seu predileto. Tentava convencer todo mundo a ler O Chamado da Floresta.”

[4] Ron, eu realmente gostei de toda a ajuda que você me deu e do tempo que passamos juntos. Espero que não fique muito deprimido com nossa separação. Pode levar um bom tempo até que a gente se veja de novo. Mas desde que eu saia inteiro desse negócio do Alasca você terá notícias minhas no futuro. Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: acho que você deveria realmente promover uma mudança radical em seu estilo de vida e começar a fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar. Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol. Se você quer mais de sua vida, Ron, deve abandonar sua tendência à segurança monótona e adotar um estilo de vida confuso que, de inicio, vai parecer maluco para você. Mas depois que se acostumar a tal vida verá seu sentido pleno e sua beleza incrível. Em resumo, Ron, saia de Salton City e caia na estrada. Garanto que ficará muito contente em fazer isso. Mas temo que você ignore meu conselho. Você acha que eu sou teimoso, mas você é ainda mais teimoso do que eu. Você tinha uma chance maravilhosa quando voltou da visita a uma das maiores vistas da terra, o Grand Canyon, algo que todo americano deveria apreciar pelo menos uma vez na vida. Mas, por alguma razão incompreensível para mim. você só queria voltar correndo para casa, direto para a mesma situação que vê dia após dia após dia. Temo que você seguirá essa mesma tendência no futuro e assim deixará de descobrir todas as coisas maravilhosas que Deus colocou em torno de nós para descobrir. Não se acomode nem fique sentado em um único lugar. Mova-se, seja nômade, faça de cada dia um novo horizonte. Você ainda vai viver muito tempo, Ron, e será uma vergonha se não aproveitar a oportunidade para revolucionar sua vida e entrar num reino inteiramente novo de experiências. Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não convencional. O que quero dizer é que você não precisa de mim ou de qualquer outra pessoa em volta para pôr esse novo tipo de luz em sua vida. Ele está simplesmente esperando que você o pegue e tudo que tem a fazer é estender os braços. A única pessoa com quem você está lutando é você mesmo e sua teimosia em não entrar em novas situações. Ron, eu espero realmente que, assim que puder, você saia de Salton City, ponha um pequeno trailer na traseira de sua picape e comece a ver algumas das grandes obras que Deus fez aqui no Oeste americano. Você verá coisas e conhecerá pessoas e há muito a aprender com elas. Deve fazer isso no estilo econômico, sem motéis, cozinhando sua comida como regra geral, gastando o menos que puder e vai gostar imensamente disso. Espero que na próxima vez que o encontrar você seja um homem novo, com uma grande quantidade de novas aventuras e experiências na bagagem. Não hesite nem se permita dar desculpas. Simplesmente saia e faça isso. Simplesmente saia e faça isso. Você ficará muito, muito contente por ter feito. Cuide-se, Ron Alex.

[5] “Quando Alex partiu para o Alasca”, relembra Franz, “eu rezei. Pedi a Deus que ficasse de olho nele, disse-lhe que aquele garoto era especial. Mas Ele deixou Alex morrer. Então, no dia 26 de dezembro, quando fiquei sabendo do que aconteceu, renunciei ao Senhor. Abandonei minha igreja e tornei-me ateu. Decidi que não podia acreditar num Deus que deixava uma coisa tão terrível acontecer a um menino como Alex. “Depois que deixei os caroneiros”, continua Franz, “dei meia-volta na van, voltei à loja e comprei uma garrafa de uísque. E então fui para o deserto e bebi tudo. Não estava mais acostumado a beber, passei mal. Esperava que me matasse, mas não. Só me deixou muito, muito mal.”

[6] Castidade e pureza moral eram qualidades sobre as quais McCandless meditava muito e com freqüência. Com efeito, um dos livros encontrados no ônibus fatal era uma coleção de contos que incluía “A Sonata de Kreutzer”, de Tolstoi, no qual um nobre que se torna asceta denuncia “as exigências da carne”. Vários trechos como esse estão assinalados e sublinhados no livro cheio de orelhas, com as margens cheias de notas enigmáticas escritas com a grafia característica de McCandless.

[7] “Parei de acenar depois da primeira passagem. Depois me ocupei em arrumar as coisas e me preparar para levantar acampamento”. Mas nenhum avião chegou naquele dia, nem no dia seguinte, nem no próximo. Por fim, McCunn olhou no verso de sua licença de caça e entendeu o porquê. Impressos num pequeno quadrado de papel estavam desenhos de sinais de emergência com a mão para comunicar-se com aviões. “Lembro de ter erguido a mão direita, com o ombro alto, e sacudido o punho na segunda passagem do avião”, escreveu McCunn. “Era uma pequena comemoração – como quando seu time faz um gol, ou algo assim.” Infelizmente, como aprendeu tarde demais, erguer um único braço é o sinal universalmente reconhecido de “tudo bem; ajuda não necessária”. O sinal para “sos; mande ajuda imediata” é dois braços levantados.

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Psicopatas do Cotidiano – Como Conhecer, Como Conviver, Como se Proteger.

Author: Katia Mecler

Editora: Leya Brasil
Ano: 2015
Edição: 1
Páginas: 253

Dedicatória:

In memorian ao meu pai, Abrahao Mecler

 

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Provavelmente você já conviveu com um psicopata, mas pode não ter se dado conta. Atualmente convivo com psicopatas no trabalho. No passado, já me deparei com psicopatas na escola, na graduação, no mestrado e em tantos outros ambientes de trabalho. É preciso saber como lidar com isso.

Sem muito alarde, já sofri bastante com isso. Pensando que o problema era meu, interiorizei várias questões que na verdade, eram dos outros. Eram os outros. Não me entenda mal, não sou uma pessoa perfeita. Bem longe de ser. Tenho cá minhas psicoses também.

Neste livro, Katia Mecler apresenta de forma bastante simpática uma introdução sem muitos termos técnicos como podemos identificar de maneira clara, a presença da psicopatia nas pessoas ao nosso redor. Ela traz à tona comparações com personagens de livros, filmes e seriados, para que o nosso entendimento seja o mais fácil possível. Também interpreta músicas (como a do Legião Urbana) e abre nossos olhos para as mensagens (que na verdade, não são nada subliminares).

Somos apresentados aos vários tipos de psicopatas (não pense você que psicopata é apenas aquele que mata, como um serial killer). Há três grandes grupos de psicopatias:

Grupo A: esquizóide, esquizotípico e paranóide.

Grupo B: antissocial, borderline, histriônico e narcisista.

Grupo C: dependente, evitativo e obsessivo-compulsivo.

Ela explica com os exemplos e conseguimos fazer várias comparações com a nossa vida. Entender o princípio do raciocínio de um psicopata pode te ajudar a evitar sofrimentos (ou pelo menos, amenizá-los).

Vale bastante a leitura, principalmente para entendermos o olhar do outro, o que nos leva a uma segunda reflexão: ninguém é perfeito e tampouco a mudança do outro é possível se ele não estiver aberto para isso.

Destaques:

[1] Um bom exemplo é Darth Vader, o vilão intergaláctico de Guerra nas estrelas. Um grupo de psicólogos e psiquiatras da Universidade de Toulouse, na França, detectou no personagem seis dos nove traços do estilo borderline. Para quem não conhece a saga, Anakin Skywalker é um jovem que se prepara para tornar-se um cavaleiro Jedi, ou seja, um guerreiro do bem. Desde cedo, ele demonstra raiva e impulsividade, por vezes, incontroláveis, além de oscilar entre a idolatria e o ódio a seus mentores. Quando adulto, assume a identidade de Darth Vader e se torna a face do mal. Independentemente do lado que escolhe, ele está sempre sofrendo, com um sentimento crônico de vazio. Não consegue estabelecer uma relação com a mulher que ama, não tem amigos – seu jeito instável afasta todo mundo – e, solitário, acaba pondo fim à própria vida. Ideias suicidas, muitas vezes levadas a termo, também fazem parte do conjunto de características das pessoas com o TP borderline. Em nenhum momento, Vader perde o contato com a realidade. Ele tem consciência de seus atos e, com frequência, se martiriza por não conseguir controlar os acessos de raiva. Revela um medo inexplicável de ser abandonado e, por causa desse sentimento, torna-se capaz de maldades incalculáveis. Numa frase, seu mentor, Mestre Yoda, resume bem o que se passa na mente de um indivíduo com essa natureza: “O medo é o caminho para o lado negro. O medo leva à raiva. A raiva leva ao ódio. O ódio leva ao sofrimento.”

[2] O mesmo acontece com outro psicopata famoso da ficção, o serial killer Dexter, do seriado de mesmo nome. Ele trabalha no Departamento de Polícia de Miami e dedica suas horas vagas a matar assassinos que escapam da lei. Um justiceiro sanguinário, cujos crimes – metodicamente planejados – são tão violentos quanto os de suas vítimas. No trato social, Dexter é agradável e encantador com quem o rodeia. De dia, leva uma vida convencional, sendo muito elogiado no trabalho. À noite, caça psicopatas. Em oito temporadas, a série teve uma média de seis milhões de espectadores por episódio, deixando claro o fascínio que esse tipo de história exerce.

[3] Indisponíveis para o outro, os indivíduos com esse traço tendem a ser fechados. Muitos acabam desenvolvendo um afeto exagerado por animais de estimação. Outros transformam o quarto num refúgio. São as características dos eremitas do século XXI, capazes de passar horas enfurnados em um cômodo com computador, videogame e fones de ouvido. A caverna tecnológica preenche quase todas as suas necessidades. No Japão, esse comportamento ganhou um termo próprio: hikikomori. Traduzindo ao pé da letra, seria algo como “puxando para dentro”. Jovens ou adultos abrem mão da vida em sociedade para se refugiar numa espécie de confinamento. “Por que preciso do mundo exterior se posso ficar em paz no meu quarto, sem fazer mal a ninguém?”, indaga uma paciente. Naturalmente, precisamos levar em consideração que algumas culturas valorizam um comportamento mais recluso e introspectivo. No oriente, isso é bem comum. Mas quando a ideia de viver numa caverna – ainda que munida de equipamentos modernos – se espalha pelas redes sociais e atrai jovens criados sob outros padrões, já podemos pensar na faceta esquizoide.

[4] Na vida profissional, os indivíduos com esse traço geralmente optam por atividades que possam desempenhar sozinhos, de preferência sem sair de casa. São concentrados, não se deixam distrair pelo ambiente externo e encaram com facilidade tarefas mecânicas ou repetitivas. No trabalho, é possível reconhecê-los naquele colega que passa horas em frente ao computador sem trocar uma palavra com ninguém. Carreiras nas áreas de matemática ou de informática, que exigem a repetição exaustiva de padrões, tornam-se um atrativo natural para quem tem esse tipo.[5] Muitas vezes, uma faceta paranoide contribui para agravar a patologia. É o caso de Eric Harris, que aos 18 anos foi um dos autores do massacre de Columbine, em 1999. A tragédia deixou quinze mortos (inclusive os dois jovens assassinos) e 25 feridos. Ao se autodefinir, ele usou a seguinte frase: “Mato aqueles de quem não gosto, jogo fora o que não quero e destruo o que odeio.”

[6] “O esquizoide é o parente ausente. Ele é o irmão faltando nos almoços de família. É o(a) sobrinho(a) que não vai a enterros. Obviamente o resto da família poderá nos tratar da mesma forma. Mas isso não nos é difícil de tolerar. Podemos até ficar chateados por sermos ignorados, mas não nos tornamos emotivos por causa disso”, define a mãe de um jovem diagnosticado com esse traço. O indivíduo com esse estilo de personalidade parece ter feito um botox emocional, tamanha a falta de expressão de seus sentimentos. Sua expressão facial pode parecer paralisada, independentemente do que acontece no mundo ao redor.

[7] É possível observar pistas do transtorno de personalidade borderline na adolescência, embora o diagnóstico só possa ser firmado no início da vida adulta. O livro O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, um clássico da literatura americana, pode ser interpretado como a história de um border em formação. Holden Caulfield, de 17 anos, age de forma frenética para evitar um abandono real ou imaginado; tem como padrão relacionamentos instáveis e intensos, oscilando entre a idealização e a desvalorização; é impulsivo nos gastos e no uso de drogas e, frequentemente, ao longo da narrativa, admite sentir um vazio inexplicável. O rapaz vive se envolvendo em brigas, motivadas por acessos de raiva. Eis aí outro traço dos indivíduos borderline: como lidam mal com a palavra “não”, podem reagir com violência quando contrariados. Uma simples discussão no trânsito chega rapidamente às vias de fato. Assim como o jovem Holden Caulfield, o indivíduo com esse transtorno tenta, a todo custo, preencher o vazio existencial que o incomoda, seja em família ou nos relacionamentos amorosos. Pula de galho em galho, à procura de algo que sequer consegue explicar direito o que é.

[8] No ambiente de trabalho, por exemplo, quando ocupam cargos de chefia, fazem a linha “morde e assopra”, alternando elogios rasgados com críticas devastadoras. “Às vezes, meu chefe parece fugir do controle, fica irado, colérico, por nada. De repente, tudo fica bem. Sinto como se estivesse caminhando em areia movediça”, conta o funcionário de uma multinacional.

[9] Indivíduos do grupo A (esquizoide, esquizotípico e paranoide) podem manifestar surtos psicóticos. Já os do grupo B (antissocial, borderline, histriônico e narcisista) e os do grupo C (dependente, evitativo e obsessivo-compulsivo) tendem a ter quadros de ansiedade e depressão.

[10] Bibliografia:
1984 – ORWELL, George
A civilização do espetáculo – LLOSA, Mario Vargas
A máscara da sanidade – CLECKLEY, Hervey
A metamorfose – KAFKA, Franz
As personalidades psicopáticas – SCHNEIDER, Kurt
Cartas a Felice – KAFKA, Franz
Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados com a saúde (CID 10) – Organização Mundial da Saúde
Correspondência – ESPANCA, Florbela
Cyrano de Bergerac – ROSTAND, Edmond
Dom Quixote – CERVANTES, Miguel de
Hare psychopathy checklist, revised: 2ª edição – D. HARE, Robert
Harry Potter – ROWLING, J. K.
Livro do desassossego – PESSOA, Fernando
Madame Bovary – FLAUBERT, Gustave
Manual de diagnóstico e estatística dos transtornos mentais, 5ª edição (DSM-5) – Associação Americana de Psiquiatria Manual de transtornos de personalidade – CABALLO, Vicente E.
Neurobiologia da personalidade – NATRIELLI FILHO, Décio Gilberto
No estoy seguro de que internet haya mejorado el periodismo – ECO, Umberto (entrevista ao jornal El Mundo)
O apanhador no campo de centeio – SALINGER, J. D.
O diário de Bridget Jones – FIELDING, Helen
O psicopata Americano – ELLIS, Bret Easton
O retrato de Dorian Gray – WILDE, Oscar
O senhor dos anéis – TOLKIEN, J. R. R.
Objetos cortantes – FLYNN, Gillian
Os crimes do monograma – HANNAH, Sophie
Personalidade e psicopatologia – CLONINGER, C. R.
Poesias inéditas – PESSOA, Fernando
Por dentro do psicopata – FALLON, James
Schizophrenia: putting context in context – PARK, Sohee; LEE, Junghee; FOLLEY, Bradley; KIM, Jejoong
Temperamento e humor: uma abordagem integrada da mente – LARA, Diogo
Transtornos de personalidade – CORDÁS, Táki A.; NETO, Mario Rodrigues Louzã
Transtornos de personalidade e doença mental franca – BALLONE, GJ
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