A Máquina de Fazer Espanhóis

Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Cosac Naify
Ano: 2011
Edição: 1
Páginas: 256
Original: A Máquina de Fazer Espanhóis

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Li meu primeiro livro escrito pelo valter hugo mãe em 2011, ano de publicação da “máquina de fazer espanhóis”. Assim mesmo, com o nome do autor e obra escritos com letras minúsculas (embora em seus romances mais recentes, já tenha abandonado a extravagância das minúsculas).

Apaixonei-me pelo texto na orelha do livro, apaixonei-me pela capa (uma ilustração do Lourenço Mutarelli), apaixonei-me pelo livro. Valter Hugo Mãe (não consigo me render às minúsculas) é um autor angolano, radicado em Portugal e ganhou grande notoriedade com este romance, que o trouxe até a FLIP 2011.

A princípio, a experiência de ler um livro sem a hierarquia das letras maiúsculas, para mim, foi quase uma tormenta. Ainda, a ausência de parágrafos e a pontuação perto de nula exaltam também o desconforto visual que sempre prezei nas escolhas das minhas leituras.  Acontece que antes mesmo do término da leitura, eu mesma me peguei escrevendo como valter hugo mãe.

Esta é a história de antónio jorge da silva, ou melhor, o senhor silva; um senhor de 84 anos, que foi internado por sua filha elisa em um asilo para idosos (o Feliz Idade) após a morte de laura, sua esposa, por quem era derradeiramente apaixonado e com quem estava casado há 48 anos. Em dado trecho, ele afirma, quando dizem que ele precisa sair do quarto: “mas não se preocupe, sabem o que fazem e até têm coração, que eu bem os entendo, mas não posso voltar para casa sem ela. Não a posso deixar aqui sozinha. Não estaria sozinha. Estaria sozinha de mim, que é a solidão que me interessa e a de que tenho medo. E isso nunca aconteceu. Não, em quase cinquenta anos de casados, nunca aconteceu.”

No decorrer da narrativa, este senhorzinho viúvo recorda algumas passagens de sua existência, as quais se embaralham com a real história de Portugal na segunda metade do século XX: mais precisamente com o regime autoritário Salazariano (ou seria Salazarista?) e a revolução ocorrida no país em 1974. Estes fatos permitem que o romance possa ser decodificado (e até aceito) como uma plausível metáfora em relação à atual condição socioeconômica de Portugal, que segundo o autor, teria se transformado em uma grande “máquina de fazer espanhóis”, dada a desigualdade econômica de Portugal em comparação aos seus vizinhos europeus, e em especial à Espanha. Em determinado trecho, um dos personagens diz que “Portugal ainda é uma máquina de fazer espanhóis. é verdade, quem de nós, ao menos uma vez na vida, não lamentou já o facto de sermos independentes. quem, mais do que isso até, não desejou que a espanha nos reconquistasse, desta vez para sempre e para salários melhores”. Potencialmente, aborda ainda um país Portugal onde as pessoas não desejam morar.

Sobretudo, este livro fala da ausência após a morte do grande amor de uma vida: “assim é o amor, uma estupidez intermitentemente universal. Toca a todos”. Apesar de mostrar temas bastante sérios como a velhice e a evolução da deficiência das faculdades mentais, a perda da companheira de anos, o descaso familiar, a adjacência da morte, e ainda questões políticas; o lirismo que encontrei nas palavras de valter hugo mãe me fascinou de tamanha forma que acabei comprando outros títulos do autor, na esperança de reaver o sentimento que provocou em mim inúmeras reflexões sobre a perda.

Ah! E como nem tudo são lágrimas, registra-se aqui o papel da amizade, principalmente na velhice, que afinal de contas, é isso o que a gente leva conosco: boas lembranças, boas risadas com os amigos. Ressalto ainda a inquietude de como o autor trata, de forma nada explícita a crueldade e solidão: há momentos em que me sinto sendo puxada, como se andasse em areias movediças, quando me deparo com o egoísmo dos personagens. Sem a amizade, a importância da vida não é latente.

Em tempo: Valter Hugo Mãe dedica esta “máquina” a seu pai, que não teve oportunidade de viver a terceira idade. Às vezes pouso meu olhar nos meus pais, que estão tendo a oportunidade de viver essa melhor idade e; penso ter a sorte de poder acompanhar as agruras desta fase tão doce e tenra. Em uma passagem no livro, é dito que: “um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. A inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem-visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico. A repreensão contínua passa por essa esperança imbecil de que amanhã estejamos mais espertos quando, pelas leis mais definidoras da vida, devemos só perder capacidades. A esperança que se deposita na criança tem de ser inversa à que se nos dirige”.

Há que se registrar aqui no blog, que coincidentemente hoje escrevo esta resenha sobre a fronteira da evolução do envelhecimento e o processo da perda (presente em um livro que li há dois anos), um dia após ter descoberto um câncer em minha mãe. Talvez uma das grandes reflexões que tirei ao ler este livro, é que mesmo aos 84 anos, o senhor silva não viveu tudo, assim como eu, aos 30 ainda tenho muito a viver; assim como minha mãe, com 61. Há como não concordar? Sinceramente, espero que não.

Destaques:

[1] “com a morte, também o amor devia acabar. Ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. Pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e  para que nos abata de uma vez por todas com piedade. E não é compreensível que assim aconteça. Com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. Esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. Foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.”

[2] “o americo chegou ao pé de nós, dobrou-se sobre o meu ouvido e disse-me, a sua filha está a chorar no gabinete do doutor bernardo. Está sozinha, senhor silva, não consegue ir-se embora. Levantei-me. Fui ao gabinete do doutor bernardo e vi a minha elisa aterrada como ficava desde pequenina quando as situações eram maiores do que o seu pensamento e o seu coração não sabia como parar de sofrer. Abracei-a e beijei-a. precisava ainda de mim aquela mulher de quarenta e nove anos. Era ainda pequena, como acho que somos todos nós para as coisas mais tristes. O doutor bernardo deixou-nos sozinhos mas eu não quis mais conversar. Quis só que ela ficasse com aquela espécie de breve perdão, o único que eu conseguia dar-lhe. Era um perdão rápido e pequeno. Como se também eu pudesse, num momento, usar um coração par sentir menos as coisas ou ser uma espécie qualquer de sovina.”

[3] “eu segurava a mão do americo, na verdade, e ele deixava-se comigo um segundo mais e era como eu achava que as minhas forças se esgotavam. Segurava na mão dele e era ínfimo o gesto mas tremenda a energia, julgava eu que suficiente para, pela raiva tão grande, punir o imbecil do meu coração que permanecia batendo à revelia dos meus mais dilacerantes sentimentos.”

[4] “eu queria mesmo era ir ao cemitério, não sei, ver como aquilo é afinal. Não é que eu não saiba, mas não sei como é depois de lá ter a minha laura. Ele levou a mão ao meu ombro. Eu sei que ali só estão as pedras a terra e os bichos que desfazem tudo, mas sinto o estranho medo de pensar que vou encontrá-la. Vou encontrá-la fisicamente, quem sabe já desfigurada como um monstro irreconhecível num livro de terror. Como se se tivessem esquecido de a cobrir com a terra. Porque a sua morte me aterroriza. Não passa, americo, não passa. A morte dela não passa. O americo esperou uns segundos por que me acalmasse. Procurou um silêncio limpo como uma folha muito limpa onde pudesse escrever uma frase mais digna e disse, um dia essa saudade vai ser benigna. A lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida. Um dia, senhor silva, a sua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. A felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido, de o ter merecido. Tenho até inveja de si, senhor silva, porque eu tenho trinta e um anos e estou por aqui solteiro, já não vou a tempo de ter cinquenta anos de uma grande paixão.”

[5] “naquele dia o mais importante de tudo era salvar a laura. À revelia do catolicismo, eu preferia abdicar de um filho que não conhecera pra continuar partilhando a minha vida e crescendo como um indivíduo ao lado da mulher que trazia definição a todas as incompletudes do meu ser e as colmatava. Eu queria mesmo a laura muitos pontos acima daquele filho que se perdia pra sempre. E nisso tive sorte. Pousei aterrorizado o crucifixo na cômoda novamente e aproximei-me do mulherio que debicava a minha esposa. Quis saber se a mantinham viva, se já lhe haviam desligado o cordão para que se autonomizasse à morte e ficasse inteira do lado imenso da vida. E assim foi. A laura levaria umas horas a recuperar os sentidos e a vislumbrar o meu sorriso triste mas inequívoco. Ganharíamos nós. Nós dois. O lugar já amadurecido do amor. O lugar em exercício. E ela chorou e aceitou, com eu, que nos faríamos mais fortes e cortaríamos caminho pelo tempo fora com garras mais afiadas. Que nada do que nos haviam dito nos preparara para aquela tragédia, e nada do que nos diriam haveria de voltar a iludir os nossos intentos, os nossos gestos.”

[6] “o meu projeto era esquecer tudo, era protestar contra a morte da laura convencendo-me que, depois da morte de alguém que nos é essencial, ao menos a memória do amor deveria ser erradicada também.”

[7] “o lugar onde laura está é igual aos outros. Não tem nada de especial e se eu não a conhecesse não conseguiria convencer-me de que ela mereceria melhor. Nenhuma coisa na minha dor estava à espera de que existisse um reclame luminoso a sinalizar onde se desfazia o amor da minha vida. Mas foi para mim estranho constatar isso. Que a laura sepultada era exatamente igual aos outros que por ali abundavam.”

[8] “o anisio foi quem se meteu comigo depois do almoço a ver se eu espevitava. Eu estou bem, dizia-lhe, estou bem. E ele queria saber se estar bem era andar de trombas. Eu respondi que o tempo não era linear. Preparem-se sofredores do mundo, o tempo não é linear. O tempo vicia-se em ciclos que obedecem a lógicas distintas e que se vão sucedendo uns aos outros repondo o sofredor, e qualquer outro indivíduo, novamente num certo ponto de partida. É fácil de entender. Quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didáticos anos. Mas para chegarmos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. Perdermos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. E dentro disso, é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha-tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. E também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. O primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. A primeira viagem que fazemos sem a sua companhia. Os lençóis que mudamos pela primeira vez. As janelas que abrimos. A sopa que preparamos para comermos sem mais ninguém. O telejornal que já não comentamos. Um livro que se lê em absoluto silêncio. O tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedem, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, a um início qualquer, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injeta também a nitidez do quanto amávamos quem perdemos, a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo.”

[9] “a morte, afinal, dizia-lhe eu, vem mesmo de todos os lados e leva-nos tudo, mesmo aquilo a que nos agarramos para lhe fugir. Se o tempo não é linear, a morte não é unidirecional, acometemos como um círculo fechando.”

[10] “eu queria muito que a minha velhice não tivesse de ser a sobrevivente do casal, porque a laura, com o seu modo de resistência, saberia implodir melhor do que eu, mantendo intacta a estrutura exterior, atendendo sem falha aos apelos quotidianos dos nossos. Eu queria ser o lado pragmático do casal. Mas eu era o dos poemas, o lado mais burro e incompetente dos afetos, ainda que aqui e acolá dotado de tanta fantasia e beleza.”

[11] “para me esquecer de que o amor, mesmo que inventado, era possível, porque o amor, para mim, mesmo que inventado, ainda vinha de algo terrível que nos queria enganar para melhor nos abater.”

[12] “não sei se é uma doença, é só cansaço, dá-lhe nervos. É como ter nervos. Nervos tenho muitos. Tem de acalmar. Sabes que os peixes têm uma memória de segundos. Aqueles peixes bonitos que vês dentro dos aquários pequenos, sabes que têm uma memória de uns segundos, três segundos, assim. É por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. Devíamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. Compreendes. A cada três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação. O americo respondeu-me, seria uma pena que não se voltasse a lembrar de mim, senhor silva, não gosto dessa teoria dos peixes, porque assim não se lembraria de mim.”

[13] “também era o anisio aquele que melhor cederia à minha chantagem. Arredado de nós como andava, não esquecido mas sem tempo para o exercício da amizade. Foi fácil cobrar-lhe a lealdade. Vi-o a rasgar em ínfimos pedaços cada carta, inviabilizando para sempre a possibilidade da sua leitura. Perguntava-me por que não deixar que ficassem. Seriam uma história bonita no feliz idade. E eu respondia que não, não o queria, que as histórias bonitas aconteciam por acaso, e eu acabara de aprender que a vida tem de ser mais à deriva, mais ao acaso, porque quem se guarda de tudo foge de tudo.”

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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
Esta entrada foi publicada em Valter Hugo Mãe. ligação permanente.

2 respostas a A Máquina de Fazer Espanhóis

  1. Tales diz:

    Aaarrrgh as minúsculas. Terror! Terror!

  2. F diz:

    O Valter é mágico, sensacional. Você tem um ótimo gosto. Aproveito para parabenizá-la pelas excelentes resenhas!

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