Livre

Livre
Autor: Cheryl Strayed
Editora: Objetiva
Ano: 2013
Edição: 1
Páginas: 376
Tradutor: Débora Chaves
Original: Wild: From Lost to Found on the Pacific Crest Trail

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Comecei a leitura de “Livre” sem muitas pretensões. Não foi uma opção minha, mas foi uma escolha de leitura compartilhada que estava querendo fazer há muito. A capa da bota com cadarço rosa não me cativou, e apesar de ser um livro recomendado pela famosa apresentadora norte-americana Oprah Winfrey, também não estava à vontade com seu tema.

Sorte que me enganei.

Este livro me fez ter a vontade de sair andando por aí com um destino certo ao longo de caminhos sinuosos (tanto que cheguei a procurar trilhas parecidas pelo Brasil). A história é baseada em fatos reais e autobiográficos de Cheryl Strayed, sendo talvez o grande charme do livro. Há um trocadilho adorável com “Starved” (faminta, em inglês) e que me fez simpatizar ainda mais com a autora.

De início conhecemos a história de Cheryl, uma jovem de 22 anos que perde a mãe em uma sofrida batalha contra o câncer. Cabe dizer aqui que é um capítulo muito triste e emocionante, afinal, lidar com a perda da mãe, é algo tão devastador que é impossível não sofrer com o fluxo das lembranças. Chorei tanto lendo esta parte da angústia enquanto aguardava meu carro na oficina que o mecânico me ofereceu um copo d’água.

Após a morte de sua mãe, Cheryl se vê ilhada em uma fase de auto punição, e submerge em um mundo de drogas, solidão e sexo. Ela precisava de ajuda para salvar a si mesma de si mesma, até que decide fazer uma incrível jornada rumo à PCT (Pacific Crest Trail). Em seu âmago, a aventura despertou a vontade de encarar como uma tentativa de redenção e ainda a possibilidade de colocar à prova seus limites percorrendo sozinha por três meses parte da PCT, 1770 km partindo do deserto de Mojave até o estado de Washington, nos Estados Unidos. Na verdade, em detalhes, a PCT é um percurso pedestre que se desdobra partindo da fronteira dos Estados Unidos com o México até sua fronteira com o Canadá (totalizando 4260 km). Descobri que você pode ser um membro ou um voluntário aqui, no site oficial.

Um bônus no final do livro é a lista de livros queimados (ou não) durante a PCT. Da lista de Cheryl, li apenas Lolita, de Vladimir Nabokov. Vale à pena conferir.

Enquanto terminava minha dissertação de Mestrado em Engenharia Eletrônica, fiz uma comparação com o livro: batalhei por quase três anos, cursei disciplinas que cansaram meu cérebro (como os pés cansados com bolhas da Cheryl), trilhei muitas dúvidas e anseios até conseguir concluir sexta passada e obter meu título de Mestre; assim como Cheryl conseguiu chegar até o fim. E, analogamente ao Mestrado, onde conheci colegas e professores incríveis, que me ajudaram a estudar e não perder a fé e o foco nos momentos mais difíceis, ela também encontra pessoas humildes e generosas que a ajudaram durante sua longa e árdua caminhada. Não há sensação melhor do que a do dever cumprido.

“Livre” deve ser lido desprovido de expectativas com desfecho mirabolante, visto que foi baseado em um fato real. Se você pensar bem, não há nada de fantástico na realidade, ela depende da ação da gente para se tornar fantástica. Um adendo: fiquei muito emocionada com os agradecimentos. Em especial ao Doug, outro trilheiro que conhece na PCT.

Destaque:

[1] “Isso era errado. Era tão implacavelmente terrível que minha mãe tenha sido tirada de mim. Eu não pude nem odiá-la adequadamente. Não consegui crescer e me afastar dela e reclamar dela para os meus amigos e confrontá-la sobre as coisas que eu gostaria que ela tivesse feito diferente e depois envelhecer e entender que ela tinha feito o melhor que podia e perceber que o que ela fez era bom demais e acolhê-la em meus braços novamente. Sua morte tinha destruído isso. Ela me destruiu. Ela me interrompeu no auge da minha arrogância juvenil.  Ela me forçou a amadurecer instantaneamente e a perdoar todas as suas falhas maternais e ao mesmo tempo que me manteve criança para sempre, minha vida tanto acabou quanto começou neste lugar prematuro onde fomos abandonadas. Ela era a minha mãe, mas eu não tinha mãe. Estava presa a ela, mas completamente sozinha. Ela seria sempre a tigela vazia que ninguém podia preencher. Eu mesma teria que preenchê-la repetidamente.”

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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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Uma resposta a Livre

  1. Amei a resenha Carol. E como comentei, é um livro que não diz nada, a primeira vista. Mas para alguém que já experimentou alguma das emoções que ela transmite, esse pequeno e grande livro tem um valor muito grande. Eu sentia que algumas das frases dela tinha saído direto da minha cabeça. Eu amei o livro e gostaria muito de fazer uma parte de PCT.

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