Os 13 Por Quês

Autor: Jay Asher
Editora: Editora Ática
Ano: 2009
Edição: 1
Páginas: 256
Tradução: Alice Rocha

Original: 13 Reasons Why

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Gosto da temática. Tenho sangue japonês, não posso negar as raízes. Terminei de ler este livro em meados de Abril, mas só agora sentei para escrever.

Confesso que havia pego este livro para ler no início do ano (por causa da temática e da capa, confesso também), mas havia outros livros na frente e acabei deixando para trás. Não imaginava o boom que este assunto causaria, principalmente com a popularização da visão do seriado que foi baseado na obra, produzida pelo Netflix (Selena Gomez está de parabéns). Este assunto movimentou as redes sociais, e não é para menos.

Conhecemos Hannah, uma adolescente normal, que muda de escola e vira assunto repentino. As coisas saem do controle quando ela começa a sofrer bullying na escola, por causa de uma lista das “melhores bundas da escola”, mas o grande estopim é desencadeado a partir de um acontecimento que Hannah presencia. Hannah deixa postumamente, 7 fitas cassete, com 13 nomes dos colegas e histórias que, seguindo sua ótica, explicam os motivos do suicídio de Hannah. São estas histórias que permeiam a trama e fazem o leitor entrar na narrativa, e mergulhar, ainda que sutilmente, nos pensamentos (até aqui apenas deprimidos, sem flashes suicidas).

A série, por motivos óbvios, é mais completa e densa (principalmente na forma como aborda, de forma explícita, a maneira como você pode se cortar), pois a produção precisou rechear os 13 capítulos com subtramas que não existiam no livro. Há quem diga que a cena final de Hannah é perturbadora (particularmente, ainda não vi).Estive refletindo durante esse tempo todo sobre como a vida é muito curta. Isso é ao mesmo tempo um paradoxo, porque a que a sexta-feira sempre demora a chegar, eu também penso. Mas, falando sério agora, eu sempre me pego pensando em como eu teria feito as coisas diferentes se eu tivesse uma segunda chance de refazê-las. Por que suicídio ainda é um tabu? Por que você não tem direito de fazer o que bem quiser com a sua vida?

A minha geração foi marcada por um suicídio, que, pelo menos para mim, foi muito significativo: em 1994, morria aos 27 anos, Kurt Cobain, para sempre o eterno líder da melhor banda grunge de todos os tempos. Os anos nos quais passei na UERJ também foram marcados pelos constantes suicídios. Pessoas aleatórias (não necessariamente do corpo discente) se dirigiam ao último andar da Universidade e se jogavam. Que morte libertadora deve ser você voar, até cair, já sem sentidos, no solo duro da realidade, a qual deixou para trás.

Há rumores que haverá uma segunda temporada no Netflix. Vou tentar assistir a primeira.

Destaque:
[1] Para me divertir, preenchi meu teste como se eu fosse Holden Caulfield, de O apanhador no campo de centeio , que era leitura obrigatória daquele semestre e foi a primeira pessoa que me veio a cabeça.
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Sejamos Todos Feministas

Autor: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2015
Edição: 1
Páginas: 64
Tradução: Cristina Baum
Original: We Should All Be Feminists

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Nunca fui feminista. Nem quando me dei conta, ainda criança, que ser mulher é sinônimo de, em muitos lugares, ter capacitação inferior. Em verdade, sempre acho que o homem pode pagar a conta toda, que pode abrir a porta do carro e que pode carregar as malas pesadas em uma viagem de lua de mel. Homem tem testosterona, é mais evoluído fisicamente. Não sangra todo mês e pode fazer xixi em qualquer lugar. Claro, eu não acho que por causa disso ele precise ganhar mais, mesmo tendo o mesmo cargo que eu. Ao mesmo tempo, não acho que uma mulher precise de um homem para ser feliz ou para ser sustentada. Tenho cá minhas convicções, ou se você quiser pensar, posso ser apenas um pouco romântica.

De uns tempos para cá, a expressão “empoderamento feminino” tem ganhado cada vez mais força. É esquisito, em pleno ano de 2017, precisar ler que as mulheres têm ganhado cada vez mais espaço no mundo dos homens. Tão estranho quanto ouvir outras atrocidades acerca de negros, asiáticos, latinos, gays e deficientes. Enfim, o mundo é assim. Não precisa ser, mas é.

Chimamanda escreve com leveza e um sutil tom de desabafo e fé sobre a supressão feminina. O livro é verdadeiro e ela usa suas próprias reflexões para contar como a desigualdade de gênero afeta sua vida.

Este livro é uma adaptação da palestra da autora no TEDx Euston de 2002.

Viva Chimamanda!

Destaque:

[1] Homens e mulheres são diferentes. Temos hormônios em quantidades diferentes, órgãos sexuais diferentes e atributos biológicos diferentes — as mulheres podem ter filhos, os homens não. Os homens têm mais testosterona e em geral são fisicamente mais fortes do que as mulheres. Existem mais mulheres do que homens no mundo — 52% da população mundial é feminina, mas os cargos de poder e prestígio são ocupados pelos homens. A já falecida nigeriana Wangari Maathai, ganhadora do prêmio Nobel da paz, se expressou muito bem e em poucas palavras, quando disse que quanto mais perto do topo chegamos, menos mulheres encontramos.

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Cadê Você, Bernadette?

Autor: Maria Semple
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2013
Edição: 1
Páginas: 376
Tradução: André Czarnobai

Original: Where’d you go, Bernadette?

Dedicatória:
Para Poppy Meyer 
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Em 2014-2015, este livro tornou-se febre entre os BookTubers aqui no Brasil. Nunca tive a intenção de ler (talvez porque a capa não tenha me agradado – sim, sou dessas), mas acabei rendendo-me ao best seller neste Carnaval.

Bernadette Fox, é, na Los Angeles do final dos anos oitenta e início dos noventa, uma jovem arquiteta bastante promissora que recebe uma bolsa MacArthur. No início da história, conhecemos a atual Bernadette, já em Seattle, mãe de Bee, casada com Elgin (que trabalha na Microsoft) e uma excêntrica dona de casa de meia idade.

O livro é quase todo narrado por Bee, mas mistura depoimentos, e-mails e outros documentos (inclusive do inimaginável FBI) que ajudam o leitor a entender, ainda que de forma bastante confusa, o que aconteceu com Bernadette.

Como forma de recompensa por suas excelentes notas na escola, Bee escolhe uma viagem com seus pais à Antártida (sim, ela também leu Shackleton) nas férias. O problema todo é que Bernadette começa a ter crises acerca da logística e do prévio enjoo que a passagem entre os icebergs e tormentas poderá causar a ela. A partir de um dado acontecimento, Bernadette some, e é aí que Bee começa a saga em busca do paradeiro de sua mãe, dando jus ao título à história.

O desenrolar da trama é interessante, e um pouco surpreendente.

Um livro que foge da linearidade temporal ordinária, com uma narrativa fluida e, por que não, viciante, “Cadê você Bernadette?” mescla comédia com um tom de crítica às grandes corporações, como no caso da Microsoft. Elgin trabalha até tarde todos os dias (precisa entregar seu projeto a todo custo, tendo ele serventia ou não para a humanidade), sua equipe sofre com boatos de demissão em massa, dentre outros comportamentos que só quem trabalha em uma grande empresa conhece.

Lendo mais sobre a autora, descobri que ela foi roteirista de alguns episódios de Mad About You, que é um dos meus seriados preferidos (mesmo se passando em Nova Iorque). Esta obra terá adaptação cinematográfica.

Destaques:

[1] Por exemplo, você sabia que a diferença entre a Antártida e o Ártico é que a Antártida possui solo e o Ártico é apenas gelo? Eu sabia que a Antártida era um continente, mas achava que também havia terra lá no norte. Aliás, você sabia que não há ursos-polares na Antártida? Eu não sabia! Eu pensei que nós veríamos do nosso navio os pobres ursos-polares tentando saltar de um iceberg em derretimento pro outro, mas para 44 presenciar esse triste espetáculo é preciso ir até o polo Norte. São os pinguins que habitam o polo Sul. Então, se você tinha uma imagem idílica de ursos-polares brincando com pinguins, pode ir perdendo suas ilusões, porque ursos-polares e pinguins estão, literalmente, em lados opostos da Terra. Acho que eu preciso sair de casa um pouco mais.

[2] PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: Você trabalha na Microsoft? EU: Ah, não, é o meu marido quem trabalha lá. (Já prevendo sua próxima pergunta.) No setor de robótica. PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: Eu também trabalho na Microsoft. EU: (Fingindo interesse, já que, na verdade, estou pouco me fodendo, mas puxa, como esse cara fala.) Ah, é? O que você faz? PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: Eu trabalho no Messenger. EU: O que é isso? PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: Sabe o Windows Live? EU: Hummm… PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: Sabe a capa do site da MSN? EU: Mais ou menos… PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: (Perdendo a paciência.) Quando você liga seu computador, o que aparece? EU: O site do New York Times. PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: Bem, é que tem uma página inicial do Windows que deveria aparecer. EU: Você está falando daquela coisa que vem instalada quando você compra um PC? Perdão, eu tenho um Mac. PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: (Começa a ficar na defensiva, porque todo mundo é louco pra ter um iPhone, mas existem rumores de que se Balmer vir você com um, você será demitido. Muito embora isso 157 ainda não tenha se provado verdadeiro, também nunca se provou falso.) Estou falando do Windows Live. É a home page mais visitada do mundo. EU: Acredito em você. PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: Que mecanismo de busca você usa? EU: Google. PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: O Bing é melhor. EU: Ninguém disse o contrário. PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: Se alguma vez na sua vida você acessou o Hotmail, Windows Live, Bing ou MSN, você deve ter visto uma aba no topo da página que diz “Messenger”. É nisso que eu trabalho. EU: Legal. O que você faz no Messenger? PAPAI QUE CURTE O AR LIVRE: Minha equipe está trabalhando numa interface para o usuário baseada em C Sharp e HTML5… E a partir daí meio que não dá mais pra entender, porque sempre existe um ponto em toda conversa desse tipo que simplesmente não tem como simplificar, por mais inteligente que você seja.

[3] Hoje no almoço, um físico vencedor do Nobel estava falando sobre “universos paralelos”. Não estou falando da hora da saída da Galer Street, com todos aqueles pais e suas jaquetas da North Face. É um conceito da física quântica que diz que tudo que pode acontecer está acontecendo em um infinito número de universos paralelos. Merda, não vou conseguir explicar agora. Mas estou dizendo, por um breve momento, no almoço, consegui entender. E, como tudo na minha vida, estava em minhas mãos e depois perdi.)

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O Que Eu Sei de Verdade

Autor: Oprah Winfrey
Editora: Sextante
Ano: 2014
Edição: 1
Páginas: 196
Tradução: Fabiano Morais
Original: What I Know For Sure

 

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Há mais ou menos uma década e meia atrás, assistia quase todos os dias o programa da Oprah na TV (The Oprah Winfrey Show), que para mim, é uma das maiores personalidades estadunidenses da atualidade. Ela ficou com seu talk show por 25 anos no ar.

O livro apresenta algumas reflexões sobre amor, gratidão, alegria e perseverança. Todos os capítulos são recheados de histórias com mensagens positivas, e principalmente, o retorno do Universo nas suas ações. Ah, e sim, ela é uma das entusiastas do fenômeno literário “O Segredo”. Fala também sobre a infância pobre e rígida da apresentadora e da gravidez na adolescência.

É curioso perceber, no reflexo dos olhos do outro, que a vida é muito mais do que sucesso profissional, orgias alcóolicas e ostentações facebookianas. A vida é sim mais que isso. Chegando agora aos meus 34 anos, percebo cada vez mais um desejo latente de ter (ainda mais) uma vida minimalista, um temperamento (ainda menos) ácido e, por que não, ligar o botão do famoso “F” de vez em quando. Às vezes (mas só às vezes), importar-se menos com o outro é saber viver.

Além disso, há várias referências literárias (principalmente de poemas) porque a Oprah lê bastante (isso é evidenciado pelo Clube do Livro, um compromisso mensal, onde ela indicava um livro em seu programa). Cabe aqui abrir um parênteses: sempre tive vontade de participar de um clube de leituras. Recentemente meu professor e amigo João Araújo, me chamou para um, mas sendo na Zona Sul, me desanimou um pouco por causa da distância. Há um outro também, da amiga da Aline no Recreio, que me interessou, mas também não fui atrás para ver. Talvez este ano, as coisas melhorem e eu consiga, finalmente, ingressar em um para conhecer pessoas que lêem os mesmos livros que eu e comecem os debates com visões diferentes – coisa que sinto falta, desde o término do ensino médio, quando eu terminava de ler (ainda que por obrigação) e conversava, horas a fio, sobre a leitura com meus colegas da escola.

Este livro eu peguei emprestado em um BookTruck da empresa onde trabalho, que, graças a Deus, incentiva o hábito da leitura nos seus funcionários.

Destaques:
[1] O que eu sei de verdade é que o prazer é uma troca de energia: você recebe de volta o que dá. O seu nível de prazer é determinado pela maneira como você enxerga a sua vida.

[2] Uma vez vi um cartaz que chamou minha atenção. Dizia: “Aquele que morre com mais brinquedos que os outros está morrendo do mesmo jeito.” Qualquer um que já tenha estado perto da morte poderá lhe dizer que, no fim da vida, você provavelmente não ficará pensando nas horas extras que fez no trabalho, ou em quanto você possui no seu fundo de investimento. O que estará na sua cabeça serão perguntas do tipo “o que teria acontecido se…”, como Que tipo de pessoa eu teria me tornado se enfim tivesse me dedicado às coisas que sempre quis fazer?.

[3] Enquanto você não estiver comprometido com algo, irá hesitar, querer desistir, e será sempre ineficaz. Em todos os gestos de iniciativa (e criação) reside uma verdade elementar, que quando ignorada interrompe inúmeros planos e ideias magníficos: no momento em que você se compromete definitivamente com algo, a Providência também entra em ação. Diversas coisas acontecem para ajudá-lo, coisas que jamais teriam ocorrido de outra forma. Toda uma sequência de eventos inicia-se a partir dessa decisão, e você se vê beneficiado por todo tipo de incidentes inesperados, encontros e auxílio material com os quais nenhum homem sequer ousaria sonhar. Aprendi a ter um profundo respeito pelos seguintes versos de Goethe: “Se você pode fazer algo, ou sonha que pode, comece a fazê-lo. / A ousaria traz inspiração, força e magia consigo.”

Decida-se e veja a sua vida progredir.

[4] Veja o que acontece em sua vida quando você passa mais tempo com seus filhos. Livre-se da raiva que sente do seu chefe ou colega de trabalho e veja o que recebe de volta. Seja amoroso consigo mesmo e com as outras pessoas e veja como o amor se torna recíproco. Essa é uma regra que não possui exceções, quer você esteja consciente disso ou não. Ela se aplica às coisas pequenas, às grandes e também às maiores ainda.

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O Fazedor de Velhos

Autor: Rodrigo Lacerda
Editora: Cosac Naify
Ano: 2008
Edição: 1

Páginas: 136

Dedicatória:
Para a Clara e sua turma

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Parte do que sou, deve-se à literatura. Outra parte, vem da genética e da cultura que nosso ambiente familiar nos insere, principalmente durante a infância. É claro que a nossa formação social também precisa ser levada em conta.

“O Fazedor de Velhos” é, coincidentemente, mais um livro que trata a questão da busca profissional como mote de libertação e dúvida existencial. Talvez seja a tímida redenção que eu tanto busco venha dos livros que leio.

Narrado em primeira pessoa por Pedro, acompanhamos sua infância, juventude e vida adulta. Ele conhece, nestes (des)encontros do destino, Nabuco, um velho e misterioso professor que entra em sua vida para ajudá-lo na orientação da dúvida que permeia sua existência: continuar a graduação em História.

De forma previsível, Pedro se apaixona por Mayumi, afilhada de Nabuco que aparece na metade da trama e os dois começam um romance “impossível”. Impossível, porque ela precisa retornar para a França por motivos acadêmicos. É curioso como o ocidental tem esta premissa de que precisa estar junto fisicamente, para estar junto. Se for um sentimento de verdade, ele vai aguentar o tempo e a distância que for. Caso não dure, não era verdadeiro. E mesmo que não dure o tempo que esperamos, quem pode provar que não foi verdadeiro enquanto durou?

Leitura rápida (li no voo de ida Rio de Janeiro x Chile). Gostei do estilo de narrativa do Rodrigo, principalmente pelas referências literárias que ele insere na sua prosa (mesmo achando que ele exagerou nas passagens dos livros que ele cita – a tala da intertextualidade. No entanto, cabe dizer que achei um pouco entediante, principalmente a parte de Shakespeare – não me levem a mal, nunca li e penso que não gostarei de ler – mas o mais perto de Shakespeare que já cheguei, infelizmente, foi Chapolin).

Destaques:

[1] Eu não lembro direito quando meu pai e minha mãe começaram a me enfiar livros garganta abaixo. Mas foi cedo.

[2] – Vocês vão se perder de vista, sim. E o tempo para ver os ex-colegas de colégio não vai existir. Os papéis com os telefones que vocês acabam de anotar vão sumir como que por encanto. Crescer é, de certa forma, se separar das pessoas amadas.

[3] – Alguns momentos, algumas coisas, ou pessoas, cheiros, visões, objetos e lembranças, nos põem em contato com o passar do tempo. Tudo o que nos emociona, tudo o que nos toca fundo, é o tempo chegando e indo embora. Se eu pudesse dar um conselho a vocês, eu diria: não queiram nunca ser eternamente jovens; gostar de viver é gostar de sentir, e gostar de sentir é, necessariamente, gostar de envelhecer.

[4] E o discurso indigesto recomeçou: – Falem com o tempo. Conversem com ele. Fiquem íntimos dele. O tempo é a nossa única companhia garantida até o último instante.

[5] – Sejam orgulhosos na derrota, e bondosos na vitória. Muito obrigado.

[6] Foi quando eu falei com todas as letras que estava apaixonado. Minha vontade, naquele momento, era ser cantor de ópera e mandar ver numa daquelas árias de romantismo arrebatado – mas deixei por menos. A Mayumi me olhou nos olhos e disse: – O que eu posso te dar, Pedro, não é o que você quer. Hoje, o que você quer é impossível. – Por que impossível? – Eu vou embora daqui a pouco… – Eu espero. – É muito romântico dizer isso, Pedro. Combina com você. Mas não comigo. – Porque você luta contra. – Meus pais morreram. Minha avó morreu. Agora só falta meu padrinho, já chega. Eu não preciso me ligar a mais ninguém, para depois perder essa pessoa de novo. – Mas quem disse que você vai me perder? – Você vai ficar esperando até eu voltar da França? Daqui a mais de um ano? – E por que não? Ela suspirou. Antes que eu dissesse qualquer coisa, decretou: – Eu prefiro um amor um pouco menos pesado. – Você não acredita ou não quer, para não sofrer mais? – As duas coisas. Tenho minha profissão, minhas pesquisas, assim como você tem a sua. Não basta? Naquele momento, a Mayumi não era menina, ou moça, era uma mulher completa. Eu, portanto, estava em desvantagem. Diante disso, apelei: – Você quer envelhecer sozinha? – Não sozinha. Mas também não envolvida num tipo de amor que exige de mim um sentimento de entrega que não quero mais ter. Fiquei perplexo com aquela opção de vida. Para mim, já que todos nós temos alguma dependência, que pelo menos seja a dependência dos sentimentos amorosos. O que exatamente ela estava querendo me dizer com “menos pesado”, “não posso te dar o que você quer”, “não sozinha, mas não me entregando”?

[7] É claro que a profissão de escritor é um pouco mais estranha que as outras. Em geral, não dá dinheiro, mesmo que dê alguma fama. Além disso, é uma atividade bastante solitária, que exige muita disciplina. Todo escritor é um pouco obsessivo. Você chega a saber de cor parágrafos inteiros do livro que está escrevendo, de tanto ler e reler, e trocar vírgulas de lugar, e substituir palavras que aos olhos dos outros não fazem nenhuma diferença. Mas eu gostava até desse pacote meio neurótico de frustrações e impulsos idealistas. De todas as características da profissão, porém, a que mais me realizava era a atenção caótica que ela pressupõe. Por um lado, a literatura é uma atividade superexigente e ciumenta, que nunca te deixa mergulhar de cabeça em nada mais. Por outro, ela te obriga a se interessar por mil outras coisas.

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O Último Adeus

Autor: Cynthia Hand
Editora: Darkside Books
Ano: 2016
Edição: 1
Páginas: 352

Tradução: Carolina Coelho
Original: The Last Time We Say Goodbye

 
Dedicatória:
Para Jeff. 
Porque esta é a única maneira com a qual sei alcançar você.

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Meu amigo Nelson me deu este livro, que foi o último que comecei a ler em 2016 e o primeiro que terminei em 2017. Ele disse que o livro parecia comigo, e realmente, acertou. O projeto gráfico é cuidadosamente bonito (capa dura soft touch) da Retina 78, e por dentro, as páginas simulam rabiscos de caneta Bic azul, como estes que fazemos quando estamos ao telefone em uma reunião prolongada ou esperando que a atendente do cartão de crédito transfira a ligação para o setor correto.

Este é um livro bonito sobre suicídio. Você pode achar estranho ou mórbido da minha parte ter gostado, garanto, mas não é. Narrado por Alexis, uma jovem nerd de 18 anos que entra para o MIT (ela é fissurada por Fibonacci), mora com a mãe (seus pais são separados) e perde o irmão, que se matou com um tiro na cabeça na garagem de casa usando o rifle de caça do pai.

Logo de início, entendemos que o irmão de Alexis, Tyler (ou Ty), se suicidou, mas ainda não sabemos o motivo. Sua mãe e seu pai se vêem obrigados a enviar Alexis a um terapeuta, para que ela converse com ele sobre o ocorrido. Ele sugere que ela escreva em um caderno tudo o que sente, para que facilite a expressão, já que ela não se sente à vontade com o terapeuta.

Tyler deixa um post it amarelo com a única frase: “Desculpa, mãe, mas eu estava muito vazio”. Este mistério permeia o livro, junto com uma carta de conteúdo desconhecido, que Alexis precisa entregar a uma garota.

O livro possui ainda várias indicações e referências literárias, desde Kafka com a Metamorfose a livros mais contemporâneos, como O Caçador de Pipas de Khaled Hosseini.

Antes que você pense que o livro traz uma tentativa de auto-ajuda, a mensagem final do livro não é nada sobre suicídio. É sobre a importância de dizermos tudo o que sentimos às pessoas que amamos. Principalmente, prestar atenção em cada detalhe. Sei bem o que isso significa: no dia que meu pai mais precisou de mim, deixei o celular no modo silencioso e dormi. Ele havia me ligado de noite para que eu o levasse ao hospital, pois estava passando muito mal na rua. Eu não atendi. Felizmente, o pior não aconteceu, mas desde este dia, nunca mais deixei o celular no silencioso, como Alexis fez em uma certa passagem do livro. A vida é frágil. Nossos momentos, ainda mais.

Vocês sabiam que Setembro foi colorido de amarelo, para ilustrar a campanha preventiva de suicídios? A depressão é uma doença invisível e muito subestimada, especialmente no Brasil. Nos agradecimentos, ao final do livro, a autora conta que perdeu um irmão em 1999, quando ele se suicidou aos 17 anos (ela tinha 20).

Leia este livro. Chorei. Chorei por Tyler, pelo irmão de Cynthia. Mas principalmente, por mim.

Destaques:

[1] “- Você está parecendo a equação de Euler. – murmurou ele, olhando para mim de cima a baixo.

Tradução nerd: dizem que a equação de Euler é a fórmula mais perfeita já feita. Simples mas elegante. Bonita.”

[2] Ele não escreveu um bilhete ao nosso pai. Nem a nenhum de seus amigos. Nem a mim. Só deixou essas sete palavras escritas em um Post-it amarelo, colado no espelho do quarto. Sua única explicação.

[3] “- Não compreendo”, falei ao olhar para as rosas envoltas em plástico. “Por que dar a uma garota algo que deveria representar o amor e que vai murchar e morrer em poucas horas?” 

Ele riu e disse que era uma maneira muito pessimista de ver a vida. Dei de ombros. 
Então, o garoto disse: “As melhores coisas são assim, Lex, as mais lindas. Parte da beleza vem do fato de elas viverem pouco”. Ele pegou um buquê de rosas bem vermelhas, e entregou a mim. “Estas flores nunca mais serão tão lindas assim, por isso temos que apreciá-las agora”.

[4] Dave mexe na barba, que é o que faz quando está prestes a dizer algo incrivelmente profundo. “O perdão é confuso, Alexis, porque, no fim, tem mais a ver com você do que com a pessoa que está sendo perdoada.” 

“Como aquele velho ditado que diz que a guardar mágoa é como beber veneno e esperar que a outra pessoa morra.”

[5] Ele pede um mocha de caramelo. Nós nos sentamos em uma mesa por um tempo e falamos sobre Kafka. Damian me sugere alguns outros livros: Crime e Castigo, de Dostoiévski, e Dublinenses, de Jaymes Joyce, e Moby Dick, de Herman Melville. Vou passar um tempo ocupada até ler tudo.

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Melhores Livros Lidos em 2016

Neste ano, li relativamente mais do que nos últimos três anos de vida deste blog. Consegui terminar 22 livros. Li muita coisa (pra mim, pelo menos). Li muito sobre a tão falada transexualidade, sobre desafios, sobre corrida, mas principalmente, sobre o amor. Infelizmente, parei de ler em setembro, quando abandonei a literatura para assistir vídeos no YouTube. É. Feio, eu sei. Mas isso mudará em 2017.

2016 foi um ano muito agitado e de bastante mudanças. Terminei o MBA em Gestão de Negócios. Mudei de local de trabalho, de colegas de trabalho, de atividades esportivas (mas espero que o Jiu Jitsu volte com gás ano que vem). Abandonei velhos hábitos como a preguiça, a mania de querer sempre que o outro mude, ao invés de mim mesma. Além disso, resolvi incorporar práticas prosaicas como lavar mais a louça que sujo, levantar todos os dias da cama pensando positivamente, reforçar que não devo me sentir ofendida nunca, não esperar que o outro entenda meu modo de pensar e agir e, principalmente, pensar que tudo o que acontece comigo e com as pessoas que eu gosto, não poderia ocorrer de outra maneira, porque o destino move as peças. Acho que com isso (a conformidade das coisas), serei mais feliz comigo mesma.

Entre tantas idas e vindas, os melhores 5 livros que li em 2016 foram:

01. Stoner
02. No Mar
03. A Incrível Viagem de Shackleton
04. Ventania
05. Mudança

Acabou que da lista para livros para ler em 2016, só li Mudança. Mais um hábito que eu gostaria de mudar em 2017: fazer planejamentos e não cumpri-los.

Neste último dia útil de 2016, espero que tudo dê certo. E que a mudança de ano, não seja apenas a troca do último dígito. Que ela traga muitas realizações.

Que 2017 seja um ano melhor, e principalmente, mais feliz, pessoal.

Vejo vocês lá.

Publicado em *** Listas | 2 Comentários