Na Natureza Selvagem

Author: Jon Krakauer
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1998
Edição: 1
Páginas: 216
Tradução: Pedro Maia Soares
Original: Into The Wild

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Quando criança, uma das brincadeiras que minha irmã e eu mais gostávamos era brincar com nossos apontadores. Pode soar estranho, mas nossa mãe comprava apontadores em forma dos mais variados bichinhos para fomentar nossa coleção. Tinha o Mel (um urso marrom com avental e chapéu de cozinheiro), a Yuko (uma onça amarela pintada), a Mitie (uma abelhinha muito simpática: uma verdadeira fauna de apontadores!) e tantos outros. Pegávamos várias caixas de sapatos e construíamos um trailer com vários cômodos (Legos, móveis da Barbie etc) e rodávamos pelo mundo, ensaiando um tipo de vida que queríamos ter.

Explorar o mundo como Chris McCandless. Ter uma alma simples e leve, como a de uma criança.

Assisti ao homônimo filme há alguns meses e fiquei com vontade de entender melhor o que aconteceu. Neste livro, conhecemos a breve história de Chris McCandless, um jovem que aos 22 anos decide chegar até o Alasca, deixando para trás uma casa uma casa abastada, a Faculdade de Direito, carro, família e amigos. A narrativa é feita pelo próprio autor, Jon Krakauer, que decide refazer o caminho de McCandless em sua trajetória rumo ao coração da natureza alasquiana. Krakauer havia escrito um artigo sobre a morte de McCandless para a revista Outside (referência para a comunida outdoor) e decide com a biografia póstuma, dar sequência a uma história fascinante.

A narrativa é bem descrita e conta uma certa riqueza de detalhes que vão além da história de Chris McCandless (ou Alex Supertramp, o senhor de seu destino, como ele mesmo preferia ser chamado). Na biografia, há histórias de outros seres ermitões e ensimesmados (como Gene Rosselini, John Mallon Waterman entre outros) que datam de diferentes períodos com as prováveis justificativas para seus os fins trágicos. Nenhum deles havia tido o nobre pensamento que Chris teve, ao revelar em suas anotações o verdadeiro sentido da vida: “a felicidade só é real quando compartilhada”. O autor teve acesso ainda às cartas enviadas por Chris, depoimentos e seu diário de viagem, que comprovavam com fatos e dados a felicidade que era estar nesta aventura.

Chris precisou fazer trabalhos esporádicos (como trabalhar no Mc Donalds), pegar caronas, acampar na rua ou sob o teto de terceiros e nada disso abalou sua crença que seria a forma correta de chegar ao seu eldorado.

A história de Chris é desconcertante: seu carisma e simplicidade tornam-se contraponto de sua inquietude e ensimesmice. Talvez a relação com seus pais tenha colaborado para que a construção de um espírito livre e transgressor. Com este livro, encontro-me a perguntar até que ponto provar que as intempéries do cotidiano estão relacionadas diretamente com a evolução do ser humano.

Chris morreu em 1992, quando eu tinha 9 anos e estava na minha própria bolha. Hoje se estivesse vivo, teria um pouco menos de 50 anos e com certeza, muitas histórias para contar.

A trilha sonora do filme vale muito à pena (tem Eddie Vedder!). Krakauer já havia aparecido aqui neste blog na história de Beck Weathers em “Deixado para Morrer”. Caso não goste de Eddie Vedder, por favor, leia o livro. Vale muito, muito à pena.

Destaques:

[1] “Você via logo que Alex era inteligente”, reflete Westerberg, acabando seu terceiro drinque. “Lia muito. Usava um monte de palavras pomposas. Acho que parte do que complicou sua vida talvez tenha sido que ele pensava muito. Às vezes fazia força demais para entender o mundo, saber por que certas pessoas eram más com as outras. Um par de vezes tentei lhe dizer que era um erro se aprofundar tanto naquele tipo de coisa, mas Alex empacava. Tinha sempre que saber a resposta certa e absoluta antes de passar para a próxima coisa.”

[2] “Àquela altura, não tínhamos absolutamente nenhuma idéia do que Chris poderia estar tramando. A multa por pedir carona não fazia sentido nenhum. Ele adorava tanto aquele Datsun que eu estava atônito que tivesse abandonado o carro e viajasse a pé. Suponho que não deveria ter me surpreendido. Chris era muito da teoria de que você não deve possuir mais do que pode carregar nas costas numa corrida repentina.”

[3] “Ele me ajudou bastante”, reconhece Burres. “Cuidava da banca quando eu precisava sair, classificou todos os livros, fez muitas vendas. Parecia se divertir realmente com aquilo. Alex era bom nos clássicos: Dickens, H. G. Wells, Mark Twain, Jack London. London era o seu predileto. Tentava convencer todo mundo a ler O Chamado da Floresta.”

[4] Ron, eu realmente gostei de toda a ajuda que você me deu e do tempo que passamos juntos. Espero que não fique muito deprimido com nossa separação. Pode levar um bom tempo até que a gente se veja de novo. Mas desde que eu saia inteiro desse negócio do Alasca você terá notícias minhas no futuro. Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: acho que você deveria realmente promover uma mudança radical em seu estilo de vida e começar a fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar. Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol. Se você quer mais de sua vida, Ron, deve abandonar sua tendência à segurança monótona e adotar um estilo de vida confuso que, de inicio, vai parecer maluco para você. Mas depois que se acostumar a tal vida verá seu sentido pleno e sua beleza incrível. Em resumo, Ron, saia de Salton City e caia na estrada. Garanto que ficará muito contente em fazer isso. Mas temo que você ignore meu conselho. Você acha que eu sou teimoso, mas você é ainda mais teimoso do que eu. Você tinha uma chance maravilhosa quando voltou da visita a uma das maiores vistas da terra, o Grand Canyon, algo que todo americano deveria apreciar pelo menos uma vez na vida. Mas, por alguma razão incompreensível para mim. você só queria voltar correndo para casa, direto para a mesma situação que vê dia após dia após dia. Temo que você seguirá essa mesma tendência no futuro e assim deixará de descobrir todas as coisas maravilhosas que Deus colocou em torno de nós para descobrir. Não se acomode nem fique sentado em um único lugar. Mova-se, seja nômade, faça de cada dia um novo horizonte. Você ainda vai viver muito tempo, Ron, e será uma vergonha se não aproveitar a oportunidade para revolucionar sua vida e entrar num reino inteiramente novo de experiências. Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não convencional. O que quero dizer é que você não precisa de mim ou de qualquer outra pessoa em volta para pôr esse novo tipo de luz em sua vida. Ele está simplesmente esperando que você o pegue e tudo que tem a fazer é estender os braços. A única pessoa com quem você está lutando é você mesmo e sua teimosia em não entrar em novas situações. Ron, eu espero realmente que, assim que puder, você saia de Salton City, ponha um pequeno trailer na traseira de sua picape e comece a ver algumas das grandes obras que Deus fez aqui no Oeste americano. Você verá coisas e conhecerá pessoas e há muito a aprender com elas. Deve fazer isso no estilo econômico, sem motéis, cozinhando sua comida como regra geral, gastando o menos que puder e vai gostar imensamente disso. Espero que na próxima vez que o encontrar você seja um homem novo, com uma grande quantidade de novas aventuras e experiências na bagagem. Não hesite nem se permita dar desculpas. Simplesmente saia e faça isso. Simplesmente saia e faça isso. Você ficará muito, muito contente por ter feito. Cuide-se, Ron Alex.

[5] “Quando Alex partiu para o Alasca”, relembra Franz, “eu rezei. Pedi a Deus que ficasse de olho nele, disse-lhe que aquele garoto era especial. Mas Ele deixou Alex morrer. Então, no dia 26 de dezembro, quando fiquei sabendo do que aconteceu, renunciei ao Senhor. Abandonei minha igreja e tornei-me ateu. Decidi que não podia acreditar num Deus que deixava uma coisa tão terrível acontecer a um menino como Alex. “Depois que deixei os caroneiros”, continua Franz, “dei meia-volta na van, voltei à loja e comprei uma garrafa de uísque. E então fui para o deserto e bebi tudo. Não estava mais acostumado a beber, passei mal. Esperava que me matasse, mas não. Só me deixou muito, muito mal.”

[6] Castidade e pureza moral eram qualidades sobre as quais McCandless meditava muito e com freqüência. Com efeito, um dos livros encontrados no ônibus fatal era uma coleção de contos que incluía “A Sonata de Kreutzer”, de Tolstoi, no qual um nobre que se torna asceta denuncia “as exigências da carne”. Vários trechos como esse estão assinalados e sublinhados no livro cheio de orelhas, com as margens cheias de notas enigmáticas escritas com a grafia característica de McCandless.

[7] “Parei de acenar depois da primeira passagem. Depois me ocupei em arrumar as coisas e me preparar para levantar acampamento”. Mas nenhum avião chegou naquele dia, nem no dia seguinte, nem no próximo. Por fim, McCunn olhou no verso de sua licença de caça e entendeu o porquê. Impressos num pequeno quadrado de papel estavam desenhos de sinais de emergência com a mão para comunicar-se com aviões. “Lembro de ter erguido a mão direita, com o ombro alto, e sacudido o punho na segunda passagem do avião”, escreveu McCunn. “Era uma pequena comemoração – como quando seu time faz um gol, ou algo assim.” Infelizmente, como aprendeu tarde demais, erguer um único braço é o sinal universalmente reconhecido de “tudo bem; ajuda não necessária”. O sinal para “sos; mande ajuda imediata” é dois braços levantados.

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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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