Sonhos Partidos

Autor: M. O. Walsh
Editora: Intrínseca
Ano: 2015
Edição: 1
Páginas: 256
Tradução: Alexandre Martins

Original: My Sunshine Away

Dedicatória:

Para Kathy, que me chamava de Pássaro

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Um dia, eu já fui uma adolescente cheia de sonhos e expectativas. Do que ser quando crescer, como seriam meus filhos, como meus pais e minha avó reagiriam com a formação da minha família. Já pensei em muita coisa, já sofri muita coisa. Com a angústia de como decidir o melhor caminho, gastei muita energia imaginando o que faria no futuro. Acontece que o futuro chegou e eu não executei nada, absolutamente nada do que pensei um dia. Eu tive oportunidade, mas não fiz.

Em “Sonhos Partidos”, conhecemos a história de Lindy Simpson, uma adolescente de Baton Rouge (capital de Louisiana, Estados Unidos). O ano é 1989, ambientado na narrativa de um amigo de Lindy (não sabemos seu nome). Naquele verão, haviam quatro suspeitos que poderiam ter estuprado a garota mais bonita da escola, e o narrador, obviamente, era um deles.

A narrativa, contada a partir das memórias do então narrador sem nome, é cativante, em contraponto com a forte história do que se pretende contar. Ainda, a obsessão do narrador por Lindy, ao mesmo tempo doentia, platônica, ingênua e factível, nos leva a acreditar que ele não poderia figurar na lista dos suspeitos. O convencimento fluido nas palavras do narrador, típicas de um adolescente apaixonado (ou, por que não, um psicopata em processo de experiência) podem levar o leitor a digerir de outra maneira o crime que acontecera.

A construção dos personagens de Walsh, assim como a riqueza dos diálogos deixa a trama mais interessante, como se em dados momentos, amenizasse o peso do mote principal. O tio do narrador, por exemplo, é o antônimo da mãe do narrador. Ele, livre para viver o que pode ser vivido; ela, presa às memórias do casamento mal sucedido. A família do narrador merece uma atenção especial, há muitas passagens e reflexões que podemos fazer acerca.

Apesar da temática, gostei do que li. Haveria muito mais coisa para escrever, mas no momento não consigo me ater imparcial para contar aqui. Um livro completo: morte, amor não correspondido, crime e redenção.

Destaques:

[1] — Sempre dizem que se você ama algo, deve deixá-lo livre. — Eu ouvia minha mãe dizer. Ela tomava seu vinho e escutava. — Isso mesmo — dizia. — Se realmente tiver que ser…

[2] Minha irmã Rachel também mudou. Largou a faculdade e voltou para casa por um ano. E embora como família sempre tivéssemos sido católicos discretos (indo à missa nos dias santos, frequentando a escola dominical se não houvesse mais nada a fazer), minha irmã Rachel descobriu Cristo de uma forma grandiosa e permanente após a morte de Hannah. Na época isso me deixou furioso. A morte aleatória de uma pessoa inocente parecia provar a Rachel que Deus tinha um plano para todo mundo, ao passo que em mim o fato envenenava a própria ideia de que existisse um Deus. Então eu a hostilizava arrumando brigas por causa de todas as evidentes hipocrisias religiosas: tal como um Deus cristão podia condenar as pessoas ao inferno por causa de onde elas cresciam, como podia lançar doenças e guerras sobre aqueles que não haviam pecado contra ele etc. Embora estivesse principalmente querendo apenas atormentá-la, embora estivesse principalmente apenas com inveja do modo como a via dar as mãos à minha mãe para rezar à mesa do jantar, acredito que também estava vacilando à beira de uma verdadeira perda de fé naqueles anos, como muitos adolescentes, e isso me assustava.

[3] — O amor é igual para todo mundo? — repeti. — Isso é deprimente. Ele pensou por um tempo. — Acho que você pode ter me entendido mal. Vamos colocar assim: você está apaixonado por uma garota agora? Eu sorri, ou talvez tenha feito uma careta, e isso me denunciou. — Certo. O que estou dizendo é o seguinte: essa garota de que você gosta agora, você sempre vai amá-la. De uma forma ou de outra. Ela ou alguém como ela. O amor nunca muda. Você pode ter cinquenta anos e se ver fazendo as coisas mais loucas por uma mulher que você acha que não tem nada a ver com aquela primeira, mas tem. Sempre haverá alguma ligação, garanto. O amor nunca muda. Então o segredo é escolher um bom para começar. Se fizer isso, então não tem nada de deprimente.

 
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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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