No Mar

Autor: Toine Heijmans
Editora: Cosac Naify
Ano: 2015
Edição: 1
Páginas: 160
Tradução: Mariângela Guimarães
Original: At Sea

Dedicatória:
Para Elsa
Para Michiel

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Acho difícil encontrar alguém que, na faixa dos 30-40 anos, não esteja passando (ou não tenha passado) por uma crise de identidade. Digo isso nos tempos atuais, claro. Antigamente, acho que as pessoas não sofriam desse grande mal do século. Sei disso, porque mesmo eu, que tento manter-me à parte das angústias existenciais, tenho, infelizmente, encontrado-me (bastante) assim.

O livro é narrado por Donald, em primeira pessoa, um homem com quase 50 anos, que, notoriamente frustrado com seu trabalho (onde, mesmo com 15 anos de casa, as promoções nunca vêm), diz à sua esposa que recebeu o apoio da empresa, de tirar um período de 3 meses de licença (tal como um período sabático) remunerado.

Em meio a toda essa crise pessoal, ele navega pelos mares do Norte e Frísio e pelo Oceano Atlântico por 3 meses, completamente sozinho em seu pequeno barco vermelho chamado Ishmael (uma referência explícita ao único personagem sobrevivente de Moby Dick). O livro, porém, narra principalmente a trajetória final da viagem, quando ele decide pegar sua filha de 7 anos, Maria, que o aguardava com a mãe, em um hotel no local combinado para que ele atracasse e a levasse para percorrer as últimas 48 horas da viagem, já que a estimativa de tempo que a travessia entre Thyborøn, na Dinamarca, e Harlingen, na Holanda, eram de exatas 48 horas.

Durante o tempo no qual Maria está a bordo, fica ainda mais clara a obsessão de Donald para que tudo ocorra perfeitamente do jeito planejado (ele anota metodicamente tudo o que acontece na monotonia do mar em seu caderno de bordo de hora em hora). Ele conversa internamente consigo mesmo, troca mensagens curtas com sua esposa e eventualmente, comunica-se com a central de controle marítimo para confirmar as condições climáticas.

O clímax do livro acontece quando, em um dado momento, Donald percebe que Maria sumiu do barco. Através de uma narrativa impaciente e reflexiva, ele repassa tudo o que ele fez nas últimas horas, e no auge do desespero, pula em mar aberto porque na agonia da ilusão, confunde sua filha com outra coisa. Cansado, Donald está prestes a por fim em seu objetivo de ser um pai exemplar de forma trágica. Mesmo com Maria sendo uma exímia nadadora, ela não conseguiria sobreviver em alto mar.

Os momentos de tensão são muito bem elaborados neste livro de estreia de Toine Heijmans. O leitor sofre junto com Donald, e a cada página a ansiedade acerca da trama aumenta, em parte cadenciada pelo ritmo das ondas, em parte pela cadeia de pensamentos exasperada. A confusão mental do narrador, que a esta altura já não é mais tão confiável, coloca à prova a curiosidade do leitor.

No Mar, é um livro bastante reflexivo (pelo menos para mim), mas sobretudo, íntimo em suas entrelinhas e, claro, paternal. Sem dúvida figura entre uma das melhores leituras de 2016.

Coincidentemente, terminei de ler este livro no dia que o ator Domingos Montagner foi encontrado morto, afogado no Rio São Francisco, em Setembro. Sim, postei bem atrasado.

Destaques:

[1] Quando você não consegue mais raciocinar com clareza, o mar te arrasta com ele.

[2] Maria é uma criança forte. Foram poucas as vezes que a vi com medo. De qualquer forma, ela não conhece o medo adulto, que esmaga os miolos da gente. Medo de criança é diferente. É fácil de espantar. Como uma lâmpada que você acende e apaga: você canta uma musiquinha ou inventa uma história, aí ela ri e logo dorme. Medo mesmo a gente só sente mais tarde.

[3] É impossível para um pai compreender o quanto uma mãe é apegada à sua filha. Quando se trata dos filhos, as mães pensam diferente dos pais. Desde muito jovem, Hagar queria ser mãe. Ela guardou suas bonecas de infância para Maria. Eis o segredo das mães: primeiro ganham bonecas que pertenciam à mãe delas, e então querem ter as próprias bonecas, e depois ter filhos e filhas, e estas ganham novamente bonecas. E filhos. Com bonecas. E assim as gerações vão se sucedendo.

[4] Nos últimos dias, o urso-polar se tornou seu amparo no mar. Ela praticamente não o largou. Deu-lhe o nome de Pompom. “Pompom”, falei, “isso é nome de coelho.” “E agora também é nome de urso-polar”, ela disse.

[5] No escritório, eles chamavam minha viagem de sabática. Eu já trabalhava na empresa havia quinze anos e reparava que meus colegas eram cada vez mais jovens. Eu ficava sempre mais velho. As promoções que eu esperava nunca chegaram. Por um bom tempo sofri com isso, até que uma hora deixou de me interessar. Achava que para mim tinha passado o tempo de ser ambicioso. Claro que gostaria de ter me tornado chefe de departamento, talvez diretor adjunto. Possuía a experiência para isso, a habilidade social e a paciência. Eu gostava do trabalho. Mesmo depois que Maria nasceu, eu frequentemente ficava noites e noites no escritório. Sempre tinha trabalho para fazer. Sempre havia algo a ser discutido. Apesar disso, porém, eu era cada vez mais deixado de lado quando surgia uma vaga para um posto mais alto. No começo eu ainda podia entender. Até que as posições mais altas começaram a ir para iniciantes, para colegas que não faziam horas extras como eu. Que não gostavam da empresa como eu. Caras acelerados, com carros de luxo. Comecei a evitar o escritório cada vez mais. Trabalhava cada vez mais em casa. Maria estava lá. Quando o tempo estava bom, ia passear com ela no parque. Quando chovia, ficávamos em casa. Podia ficar horas olhando para ela enquanto ela dormia. Hagar às vezes me perguntava como eu podia ficar tanto em casa. “A crise também atingiu a gente no escritório”, dizia então. “Simplesmente não há mais tanto trabalho como antes.”

[6] Deixei que o resto da minha vida sumisse de vista. Primeiro o escritório. Principalmente o escritório, e as coisas que eram importantes lá. Os e-mails da equipe de administração, a qualidade do café da máquina, o posicionamento em relação ao concorrente, o novo site, o tráfego no novo site e a estratégia de negócios que havia previsto muito mais tráfego. As cifras. O volume de negócios, a administração das horas trabalhadas, a compensação dos quilômetros. As conversas com clientes. Todo mundo estava sempre ocupado com essas conversas. Na empresa, tudo girava em torno disso. Marcava-se uma hora com o cliente para vender alguma coisa. Você dizia uma coisa para o cliente durante essa reunião e sabia que ele não acreditava, e sabia que o que tinha dito não era bem verdade, mas você continuava sempre sorrindo, simpático, e o cliente fazia o mesmo, e quando você apresentava o relatório ao seu chefe de departamento, dizia que tinha sido uma reunião fantástica. Uma reunião com potencial. Com uma transação em vista. O cliente fazia exatamente o mesmo. Assim como você, ele também tinha interesse numa reunião bem-sucedida e no fechamento de um negócio. Porque se você voltava para o escritório com uma história menos entusiasmante, o chefe de departamento podia pensar que tinha sido uma reunião inútil. Reuniões inúteis não eram boas para a sua avaliação no final do ano. Cada funcionário era avaliado pelo chefe de departamento com um A, um B, um C, um D ou um E. As letras correspondiam a um bônus ou abatimento no seu salário, conforme a escala salarial, de acordo com a convenção coletiva. A e B significavam aumento; com C, D ou E, havia redução. Quanto mais boas reuniões com clientes, maiores as chances de um salário melhor. Desta forma, surgia no escritório, e entre escritórios, uma série de transações que não davam em nada, mas que eram importantes do ponto de vista das avaliações. Entrar nesse jogo era o normal. Até que você deixasse de achar normal. E, se você não achasse mais normal, seu chefe de departamento percebia. Se parasse de jogar, se tornava um perigo para os outros jogadores, que não poderiam mais confiar em você. Se isso acontecesse, todos os outros se afastariam. Foi mais ou menos o que aconteceu no escritório.

[7] Na minha opinião, Moby Dick é o livro mais bonito já escrito sobre um barco e sua tripulação. Por isso usei o nome.

[8] Pequenas coisas podiam de repente provocar um desastre. Quantas pessoas não tiveram seu fim de maneira estranha. Um degrau na cozinha. Uma gripe. Um escorregão. Doenças. Morrer já era estranho em si, pensei. É estranho que desapareça de uma vez tudo o que se construiu em uma vida, tudo o que se conheceu, tudo o que você aprendeu a amar.

[9] Pessoas normais evitam aventuras – elas têm razão. Quando você escala uma montanha, seu destino está nas mãos da montanha. E a montanha se importa se você cai ou não?

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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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