Correr

Autor: Drauzio Varella
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2015
Edição: 1
Páginas: 216

Jpeg

 

Desde que meu novo local de trabalho fez com que eu abandonasse a prática diária de Jiu Jitsu, tenho procurado gastar as calorias e parte do tempo matinal em outro desporto. Primeiramente, achei o spinning. Um esporte indoor, praticado em um local seguro (na academia), mas que por causa do horário rígido, acabou com o sonho de tê-lo como atividade favorita. Aí acabei pensando e resolvi, por que não, tentar correr.

Desde o momento em que calcei o tênis, decidi que correria, até o final do ano, uma corrida de rua. E aí que quando comecei a me animar e parar de sentir aquela dor da respiração errada, fiquei doente e parei.

Enquanto me recupero, passei a assistir mais vídeos sobre corrida (atualmente especialmente encantada com as maratonas), ler artigos e, por que não, ler um livro sobre?

A narrativa é feita em primeira pessoa, e mescla uma linguagem informal em ritmo cadenciado do cotidiano das corridas do Doutor Drauzio com linguagem técnica, em capítulos que ele fala sobre nervos, ossos e afins – tudo relacionado à corrida.

Ele conta como organiza seus exercícios (não gosto da banalização da palavra “treino”), como é sua preparação para as corridas, o que ele sente, de forma bem humorada, totalmente diferente da sobriedade do médico do quadro do Fantástico.

Duas coisas me surpreenderam no livro: a amizade de longa data com a Zelia Duncan e o fato de aos setenta anos, Drauzio (ainda) ser um maratonista. Ele começou a ideia de correr os famosos 42 km aos cinquenta anos, como uma forma de provar a si mesmo e aos amigos, que era capaz. E aí, será que aos quarenta anos eu animo?

Recomendo a leitura para os que já praticam ou os que pretendem iniciar.

Destaques:

[1] Sempre achei mal contada a história do guerreiro que correu de Maratona a Atenas para levar a notícia da vitória na batalha contra os persas. Segundo a lenda, o rapaz teria gastado seis horas para percorrer os tais 42 quilômetros, avisado que os atenienses haviam derrotado os persas e morrido de exaustão, depois de balbuciar o nome da deusa grega da vitória: Nike — 2500 anos mais tarde rebaixada à categoria de marca de material esportivo. Vamos lembrar que nas maratonas atuais, passadas seis horas do início da prova, os organizadores retiram as barreiras e reabrem as ruas para o tráfego, não obstante haja um ou outro retardatário. Se já é difícil acreditar que o soldado mais veloz do intrépido exército ateniense corresse tal distância em tempo tão medíocre, que dizer do vexame de cair morto? Não bastasse essa inconsistência, ficaria a dúvida da medição do tempo: se o guerreiro sucumbiu ao pronunciar o nome da deusa Nike, como foi possível, sem chip nem relógio de pulso, saber o horário exato em que partiu de Maratona? Teriam medido com precisão as seis horas cravadas, com base unicamente na posição do Sol?

[2] Centenas de milhares de mulheres e homens disputam maratonas pelo mundo, em condições climáticas que vão do inverno em Tóquio aos trinta graus de julho no Rio de Janeiro, sem que ocorram incidentes de maior gravidade. Se é assim, por que há mortes durante maratonas? Primeiro: trata-se de episódios raríssimos que provocam grande repercussão nos noticiários. Mortes durante práticas esportivas causam comoção social, porque costumam ser súbitas. A morte súbita expõe como nenhum outro evento a fragilidade da condição humana: o estar aqui e no minuto seguinte não estar mais. Não pode existir acontecimento mais dramático em nossa existência. O que seria comparável? O nascimento de um filho? O encontro com a fortuna ou com a pessoa amada? A vida e a morte encerram a contradição suprema dos seres humanos, únicos animais capazes de criar teorias fantásticas para lhes assegurar a sobrevivência eterna da alma.

[3] Num domingo, no Rio de Janeiro, minhas amigas Zélia Duncan e Michelle Negri e eu combinamos nos encontrar no Leblon, seguir pelo Jardim Botânico e subir pela Floresta da Tijuca até a Vista Chinesa e a Mesa do Imperador, no alto da montanha. Nós três já participamos das maratonas de Chicago, Berlim e Rio de Janeiro, além de corridas de treinamento no Aterro do Flamengo, na lagoa Rodrigo de Freitas e no Centro de São Paulo. Michelle, mais leve e mais jovem, completa 42 quilômetros em menos de três horas e meia, tempo inacessível para Zélia e para mim. Saímos do Leblon, pegamos a rua Pacheco Leão, que segue ao lado do Jardim Botânico, passamos pelo prédio da TV Globo em que gravo para o programa Fantástico, e entramos na ladeira asfaltada que conduz à Floresta da Tijuca. Dali até a Mesa do Imperador são cinco quilômetros, que sobem sem descanso nem comiseração. Nosso passo era lento para Michelle, que se distanciava, para depois voltar ao nosso encontro por alguns minutos e avançar outra vez.

[4] A consciência de que não tenho muitos anos pela frente nem tempo para desperdiçar com futilidades nem interesse por pessoas que não se interessam por mim foi o maior dos benefícios que o passar dos anos me trouxe. À medida que meu horizonte encurta, aumenta a necessidade de me concentrar na busca do essencial, daquilo que me deixa mais feliz.

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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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