Só Garotos

Autor: Patti Smith
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2010
Edição: 1
Páginas: 280
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza
Original: Just Kids

Jpeg

Um dos prefácios mais lindos que já li:

“Eu estava dormindo quando ele morreu. Telefonei ao hospital para dar boa-noite outra vez, mas ele já estava embalado, sob camadas de morfina. Segurei o telefone e fiquei ouvindo sua respiração ofegante, sabendo que nunca mais o veria de novo. Mais tarde, arrumei calmamente minhas coisas, meu caderno e minha caneta-tinteiro. O tinteiro azul-cobalto que tinha sido dele. Minha xícara persa, meu coração púrpura, uma caixa de dentes de leite. Lentamente subi a escada, contando os dentinhos, catorze, um a um. Puxei a coberta sobre o bebê no berço, beijei meu outro filho, adormecido, e me deitei ao lado do meu marido e rezei. Ele ainda está vivo, lembro de sussurrar. Então dormi. Acordei cedo, e quando desci a escada sabia que ele estava morto. Tudo estava parado, exceto o som da televisão, que ficara ligada a noite inteira. Em um canal de arte. Estava passando uma ópera. Fui atraída para a tela quando Tosca declarava, com força e tristeza, sua paixão pelo pintor Cavaradossi. Era uma manhã fria de março e vesti minha blusa. Abri a cortina e a claridade entrou no estúdio. Alisei o tecido pesado da minha poltrona, peguei um livro de pinturas de Odilon Redon e o abri na imagem da cabeça de uma mulher flutuando em um pequeno mar. Les yeux clos. Um universo ainda não atingido contido sob as pálpebras pálidas. O telefone tocou novamente e me levantei para atender. Era o irmão caçula de Robert, Edward. Ele me contou que dera a Robert um último beijo por mim, conforme havia prometido. Fiquei imóvel, congelada; então, lentamente, como em um sonho, voltei à poltrona. Naquele momento, Tosca começava a grande ária Vissi d’arte. Vivi por amor, vivi pela arte. Fechei os olhos e juntei as mãos. A Providência decidiu como eu me despediria.”

Come on now try and understand 

The way I feel under your command 
Take my hand as the sun descends 
They can’t touch you now, 
Can’t touch you now, can’t touch you now 
Because the night belongs to lovers 
Às vezes passa um filme na minha cabeça, principalmente quando ouço músicas ou sinto cheiros que me remetem a um passado que existiu e marcou uma importante parte da minha existência. Essa música é um exemplo bem claro disso. Patti Smith (ou melhor, a voz de Nathalie Merchant) embalou muitas noites solitárias de rock’n roll quando eu era mais jovem. Ficava ouvindo a melodia e repetindo a letra na minha cabeça com meu walkman, de modo que ela se encaixasse perfeitamente em qualquer atividade que eu fizesse.

A história autobiográfica narrada pela própria Patti Smith conta sua vida a partir de sua infância humilde em New Jersey, Estados Unidos.

É uma narrativa poética, uma história muito bonita e bem contada. Narrada em primeira pessoa, acompanhamos desde o nascimento de Patti (na metade da década de quarenta) em uma família muito simples até a morte de Robert Mapplethorn, seu companheiro, vítima de HIV na fatídica década de oitenta.

A infância de Patti foi humilde, porém sempre rodeada de livros (isso é a prova de que a literatura é acessível a todos). Aos 19 anos, trabalhando como operária em uma fábrica, Patti engravida e decide entregar a criança à adoção. A partir daí ela começa a sua viagem em busca de si mesma e conhece Robert, com que se casaria pouco tempo depois.

É com Robert que Patti começa a expôr seu lado artístico, desenhando enquanto ele faz colagens. Ela também escreve poemas (e claro, posteriormente, canções). Confesso que fiquei bastante decepcionada com o fato de não haver nenhuma menção à minha música favorita Because The Night. A revolução das drogas estava ocorrendo em paralelo ao caos sentimental onde o casal se encontrava. Principalmente porque Robert havia se descoberto como homossexual, tendo vivendo a revolução sexual prostituindo-se em troca de dinheiro, com o consentimento de Patti – o amor entende tudo?

Recomendo este livro para quem quiser ler mais sobre a incrível década de 70, de Janis Joplin, Hendrix, Andy Warhol e outros artistas (plásticos, fotógrafos, cineastas…). Uma bela biografia com o prefácio mais bonito que já li.

Destaques:

[1] Mas, logo depois que Robert foi demitido, eu também fui. Deixei de cobrar os impostos de um cliente chinês que comprara um Buda caríssimo. “Por que eu deveria pagar o imposto?”, ele disse. “Não sou americano.” Eu não soube o que responder, então não cobrei. Minha decisão custou meu emprego, mas não lamentei.

[2] Essas transações deixavam Robert tenso. As revistas eram caras, cinco dólares cada, e ele sempre corria riscos quanto ao conteúdo. Quando ele finalmente escolhia uma, voltávamos correndo para o hotel. Robert abria o celofane com a expectativa de Charlie abrindo o papel-alumínio de uma barra de chocolate na esperança de encontrar o cupom dourado.

[3] Jim e eu passávamos muito tempo em Chinatown. Toda vez que saía com ele era uma aventura flutuante, como cavalgar as altas nuvens de verão. Eu gostava de ver como ele interagia com estranhos. Íamos ao Hong Fat porque era barato e os bolinhos eram gostosos, e ele conversava com os velhos. Comíamos o que eles pusessem na mesa ou apontávamos para o prato de alguém porque o cardápio era em chinês. Limpavam as mesas jogando chá quente e esfregando com um trapo. O lugar tinha cheiro de chá oolong. Às vezes Jim simplesmente pegava um fio abstrato de conversa com um desses veneráveis senhores que então nos levava pelos labirintos de sua vida, passando pela Guerra do Ópio e pelas casas de ópio de São Francisco.

[4] Continuei lendo, recitando Corso e Maiakóvski, e depois voltei ao mar, para ser arrastada até o fundo por George.

[5] Precisávamos de tempo para descobrir o que tudo aquilo significava, como faríamos para nos ajustar e redefinir o modo de chamar nosso amor. Aprendi com ele que muitas vezes a contradição é o caminho mais claro para a verdade.

[6] O Chelsea estava mudando, e a atmosfera da Twenty-third Street dava uma sensação maníaca, como se alguma coisa tivesse dado errado. Não havia nenhuma lógica, mesmo tratando-se de um verão em que a atenção de todo mundo estava voltada para um jogo de xadrez em que Bobby Fischer, um rapaz americano, estava prestes.

[7] Eu queria muito sair da Strand. Odiava ficar presa no porão desempacotando o estoque lotado. Tony Ingrassia, que me havia dirigido em Island, convidou-me para participar de uma peça de ato único chamada Identity. Li o texto e não entendi. Era um diálogo entre mim e outra garota. Depois de alguns ensaios medíocres, ele me pediu para mostrar mais ternura pela garota. “Você está muito dura, muito distante”, ele dizia, exasperado. Eu era muito afetuosa com minha irmã Linda e apliquei esse afeto na minha interpretação de ternura. “Essas garotas são namoradas. Você precisa passar isso.” Ele levantou os braços. Fiquei pasmada. Não havia nada no texto que sugerisse isso. “Simplesmente finja que ela é uma das suas namoradas.” Tony e eu tivemos uma discussão acalorada que terminou com ele rindo sem acreditar. “Você não se pica e não é lésbica. O que você faz afinal?”
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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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2 respostas a Só Garotos

  1. Aline Dias diz:

    Acho que vou gostar desse livro!

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