Água para elefantes

Autor: Sara Gruen
Editora: Arqueiro
Ano: 2007
Edição: 1
Páginas: 272
Tradução: Anna Olga de Barros Barreto
Original: Water for Elephants
Jpeg 

Em outubro de 2015 meu pai sofreu uma forte crise que descobrimos ser um aneurisma da aorta abdominal. Ele ficou internado por duas semanas e não preciso dizer que esta foi uma fase muito ruim da minha vida e igualmente da minha família. O cigarro é o grande culpado. Ou melhor, o cigarro corroborou para esta crise, uma vez que o grande culpado por tudo isso é, de fato, o meu pai. Por alguns meses papai parou de fumar, atividade que fazia com dedicação há mais de 50 anos. Neste período de angústia e muita aflição, meu amigo Wanderlan me deu este livro dizendo que era para me fazer companhia no hospital. E aí que muita coisa aconteceu. Meu pai saiu do hospital, voltou a fumar, tivemos muitas mudanças de hábitos em casa e acabei deixando o livro na estante junto com o DVD que o Wanderlan, preocupado em me ajudar a fazer o tempo passar de forma mais amena e distraída, também me deu.

E aí que eu li.

Este livro me lembrou um pouco o “A máquina de fazer espanhóis”. Digo isso pois ambos os narradores, viúvos, são internados em uma casa de repouso por seus filhos.

Jacob Jankowski é um senhor rabugento hóspede de uma casa de repouso. Sua idade, não sabe ao certo se 90 ou 93.

A narrativa é feita em primeira pessoa e intercala os momentos atuais da vida de Jacob na casa de repouso com suas memórias da rotina que tinha aos 23 anos, no verão norte americano de 1931, quando era estudante de veterinária de uma conceituada Faculdade. Sua vida era normal até que um fatídico acidente de carro envolvendo seus pais vira sua vida de ponta cabeça. Consternado, Jacob não faz os exames finais que garantiriam seu diploma de veterinário e corre sem rumo pela mata seguindo a linha férrea e acaba encontrando um vagão de trem.

O trem em questão era do circo itinerante dos irmãos Benzini, chamado “Esquadrão Voador do Circo Irmãos Benzini – O Maior Espetáculo da Terra”. Após adentrar no vagão, Jacob esbarra em algumas dificuldades, mas acaba fazendo amizades, como por exemplo, com Camel e Kinko. É lá também que conhece Marlena, a domadora de cavalos casada com August, o diretor equestre (que é diagnosticado com esquizofrenia – com traços evidentes de transtorno bipolar) e por quem se apaixona imediatamente. Vivendo a enorme tensão entre estar apaixonado por Marlena, com a reciprocidade do adultério sigiloso por ainda ser casada com August, Jacob sofre em silêncio por sua amada e por seus amigos.

Apesar de toda a crise financeira pela qual os Estados Unidos passam no ano de 1931, período da Grande Depressão Americana, o dono do circo, o temido Tio Al, adquire uma elefoa. Com o dinheiro gasto na aquisição de Rosie e da infraestrutura e comida para sua hospedagem e alimentação, tio Al começa a não cumprir com o pagamento dos salários dos funcionários (menos os artistas, que continuam a receber). Somado a isso, temos o grande desespero (ou seria perversidade?) com funcionários sumindo dos vagões durante a calada da noite.

A consciência senil de Jacob é apresentada a todo instante onde voltamos a tê-lo como narrador de suas memórias: “Eu achava que preferia envelhecer à outra opção, mas agora já não tenho tanta certeza. (…) Mas não há nada que eu possa fazer em relação a isso. Só me resta passar o tempo esperando o inevitável, observando os fantasmas do meu passado se agitarem em volta do meu presente insignificante”. Abro aqui um parênteses para solidificar que a velhice é a única certeza que temos até a conhecermos – esta auto consciência de envelhecer tem feito parte de mim depois que passei dos 30 anos.

Gruen consegue fazer um delicado paralelo entre a grandeza e alegria do espetáculo assistido no picadeiro com a frieza e covardia dos maltratos para com animais e funcionários. Talvez nada muito diferente da realidade que vemos no mercado do entretenimento mundo afora.

Destaques:

[1] Tenho 90 anos. Ou 93. Uma coisa ou outra.

Quando temos cinco anos, sabemos até os meses de nossa idade. Mesmo por volta dos 20 sabemos quantos anos temos. Tenho 23, dizemos, ou talvez 27. Mas quando chegamos aos 30, algo estranho começa a acontecer. A princípio, é um mero sobressalto, um instante de hesitação. Quantos anos você tem? Ah, eu tenho – você começa confiante, mas depois pára. Ia dizer 33, mas não é essa a sua idade. Você está com 35 anos. E isso o incomoda, pois você fica imaginando se não é o início do fim. Claro que é, mas ainda faltam décadas pra você admitir isso.

Começamos a esquecer as palavras: elas estão na ponta da língua, mas, em vez de simplesmente saírem, permanecem ali. Subimos a escada para buscar alguma coisa, e quando chegamos lá em cima, não lembramos mais o que estávamos procurando. Chamamos um filho pelo nome de todos os outros e até pelo nome do cachorro antes de acertar. Às vezes esquecemos em que dia estamos. E, por fim, o ano。

Na verdade, não é que eu tenha esquecido. Simplesmente deixei de prestar atenção. Passamos o milênio, disso eu sei – tanto barulho por nada, todos aqueles jovens chiando de tanta preocupação e comprando comida enlatada porque alguém teve preguiça de deixar espaço para quatro dígitos em vez de dois -, mas isso pode ter sido no mês passado ou há três anos. O que importa? Que diferença há entre três semanas, três anos ou até mesmo três décadas de purê de ervilha, mingau e fraldas geriátricas?

Tenho 90 anos. Ou 93. Uma coisa ou outra.

[2] A idade é um ladrão terrível. Justamente quando se começa a entender melhor a vida, a idade nocauteia suas pernas e arqueia suas costas. Ela lhe traz dores, lhe confunde a cabeça e silenciosamente espalha o câncer em sua esposa.

[3] Embora haja ocasiões em que eu daria tudo para tê-la de volta, foi bom ela ter ido primeiro. Perdê-la foi como ter sido partido ao meio. Naquele momento tudo acabou para mim, e eu não gostaria que ela passasse por isso. Ser sobrevivente é uma droga.

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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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