Stoner

Autor: John Williams
Editora: Rádio Londres
Ano: 1965 (2015)
Edição: 2
Páginas: 314
Tradução: Marcos Maffei
Original: Stoner

Dedicatória: Este livro é dedicado aos meus amigos e ex-colegas do departamento de Inglês da Universidade de Missouri. Eles reconhecerão de imediato que é uma obra de ficção, que nenhum personagem nele retratado se baseia em qualquer pessoa real, viva ou morta, e nenhum evento tem a sua contrapartida na realidade que conhecemos da Universidade do Missouri. Eles também perceberão que tomei certas liberdades, tanto físicas quanto históricas, com a Universidade do Missouri, de modo que efetivamente também ela é um lugar ficcional.


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Stoner foi uma história que me encantou desde a primeira página (ou desde a capa, se vocês me permitem adicionar certo exagero). Apesar de muito relutar, entendi no desenvolvimento da leitura, que ele havia tomado o lugar do meu livro favorito da vida “O Apanhador no Campo de Centeio”.

“William Stoner entrou na Universidade do Missouri como calouro no ano de 1910 com a idade de 19 anos. Oito anos depois, no auge da Primeira Guerra Mundial, recebeu o diploma de doutorado e assumiu um cargo na mesma universidade, onde lecionou até a sua morte, em 1956. Nunca subiu na carreira acima da posição de professor assistente, e poucos estudantes se lembravam dele com alguma nitidez após terem cursado suas disciplinas. Quando morreu, seus colegas doaram à biblioteca da universidade um manuscrito medieval em sua memória. Esse manuscrito ainda pode ser encontrado no ‘Acervo de Livros Raros’, com a seguinte inscrição: ‘Doado à Biblioteca da Universidade do Missouri. Em memória de William Stoner, departamento de Inglês, por seus colegas’”. Este é o primeiro parágrafo do livro, que, por si só, já resume brevemente a história.

Identifiquei-me com Stoner por sua apatia cativante, o lado blasé de quem não escolhe seu próprio destino. Para muitos, parece que Stoner é covarde e indiferente ao que acontece ao seu entorno. Talvez. Mas pode ser mais do que isso: além de resignado, é dotado de um senso de justiça aguçado e visceral.

William Stoner nasce no campo. Filho de agricultores simples, cresce à deriva do trabalho braçal ajudando os pais na lavoura. Um dia, seu pai o surpreende com a notícia de que havia guardado algumas economias para enviar Stoner para a Universidade, que ficava a algumas horas da lavoura, de modo que ele cursasse Agronomia na Universidade de Missouri. Assim, através dos estudos, ajudaria a família com métodos e processos que aprendesse na academia.

Após cursar literatura, uma disciplina secundária do curso, apaixona-se por Shakespeare. Decide, através de uma admiração quase platônica por seu professor Archer Sloane, trocar o curso de Agronomia por Literatura. Torna-se assim, após alguns anos, Professor de Retórica e Literatura Medieval. Este fato só é revelado a seus pais apenas no dia da Formatura. Apesar de seus pais, crerem estar formando um agrônomo, receberam a novidade sem muita animosidade. Após a formatura, voltam para a lavoura como chegaram: sem grandes espasmos de agitação. Assim, Stoner decide seguir cursando Mestrado e Doutorado. Mesmo sendo um brilhante e devoto professor à Universidade, ele só é elevado a professor titular anos depois, quando o quadro de docentes sofre uma considerável baixa devido à Guerra.

No campo sentimental, Stoner apaixona-se por Edith. Durante seus cortejos, sutis e educados, ela não demonstra nenhum interesse e ele acaba por quase desistir. Um dia, no entanto, Stoner é convidado a conhecer os pais de Edith, e para sua surpresa, Edith revela a necessidade do matrimônio. Stoner, que até então nunca interessou-se por alguém, sofre uma grande decepção com a esposa, que mostra-se indiferente à sua presença e posteriormente, grande amargura com a relação conjugal.

Mesmo com o nascimento de Grace alguns anos depois, Edith continua sua angústia de viver acamada, e não cuida da filha nem da casa. O grande prazer de Stoner, é voltar da Universidade e poder cuidar da filha, cozinhando, dando banho, comprando roupas e lendo a seu lado. Os dois passaram grande parte da infância de Grace juntos, no escritório que era também quarto de Stoner, uma vez que Edith não deixava que ele dormisse com ela.

É justamente dedicando mais tempo às suas aulas e seminários, tentando fugir da realidade angustiante domiciliar que Stoner conhece Katherine Driscoll, uma professora que decide assistir a seu seminário como ouvinte e que torna-se a grande alegria de sua vida, desde que Grace fora absorvida de volta por Edith. Através de Katherine Driscoll, Stoner percebe, tardiamente, que o amor não era o que ele imaginava ser com Edith.

Narrado em terceira pessoa por um narrador observador, John Williams faz de sua narrativa algo muito delicado, esmiuçando os dramas, que de início apresentam-se miúdos na decepção, frustração e ausência de triunfos e ambições de Stoner. Note que mesmo com todo o sofrimento de Stoner, ele não é digno de pena, já que, por diversas vezes, ele mesmo não esperava nada da vida.

Este livro foi escrito em 1965 e reeditado recentemente, dado a sua “redescoberta” por influentes literatas da atualidade. É, sem sombra de dúvida, um grande livro.

Obrigada, Nelson, por me permitir conhecer a trajetória de Stoner.

Destaques:

[1] “Ele lançou um breve olhar a Stoner. “Mas eu pude ver o que se seguiu. Uma guerra não mata só alguns milhares ou algumas centenas de milhares de jovens. Ela mata algo num povo que nunca pode ser recuperado. E, se um povo atravessa várias guerras, logo só o que sobra é o bruto, a criatura que nós… eu e você, e outros como nós, tiramos do lodo.””

[2] “Em seu quadragésimo terceiro ano, William Stoner aprendeu o que outros, muito mais jovens que ele, haviam aprendido antes dele: que a pessoa a quem se ama no começo não é a pessoa que enfim se ama, e que o amor não é um fim, mas um processo através do qual uma pessoa experimenta conhecer outra.”

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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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Uma resposta a Stoner

  1. NELSON NICOLINI MONTEIRO diz:

    Carol, fico feliz em ter te proporcionado uma leitura que superou suas expectativas. Espero fazer isso mais vezes, mesmo que seja com suas sugestões. 😉

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