Mudança

Autor: Mo Yan (管谟业)

Editora: Cosac Naify
Ano: 2013
Edição: 1
Páginas: 128
Tradução: Amilton Reis
Original: 变

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Nunca imaginei que um autor chinês ganharia o prêmio mais importante da Literatura escrevendo prosa. Mo Yan ganhou o Nobel de Literatura em 2012 por seu pequenino livro “Mudança”, ou melhor, por “变” (Biàn). Yan foi expulso da única escola em seu vilarejo no sexto ano. No entanto, como resolveu que continuaria indo às aulas, foi passando desapercebido todo encolhido recostado nas paredes, os professores o ignoraram. Quem diria que quarenta anos mais tarde, esta criança proibida de ter acesso à educação seria o ganhador do mais aclamado prêmio da Literatura mundial?

Para quem não sabe, Mo Yan também é autor de Sorgo Vermelho, infelizmente não traduzido para o português ainda (e acho que é até então a mais famosa obra de Yan). Este livro foi adaptado para o cinema e Zhang Yimou e Gong Li contracenam no retrato mais famoso sobre a invasão japonesa na China.Mudança é narrado em primeira pessoa, pelo próprio Mo Yan. É fruto de uma encomenda de um colega editor chamado Tariq Ali para uma coleção chamada “What Was Communism”. Ele gostaria que Yan escrevesse sobre as transformações da China nas últimas três décadas. Esta justificativa para o enredo do livro ele apresenta logo no Prólogo.

Aceitando o pedido, Mo escreve sobre sua infância no campo, sua relação com os amigos da escola Lu Wenli e He Zhiwu, que apesar de possuírem papéis secundários na história, são bastante relevantes em sua história autobiográfica e ajudam a compor o cenário da transformação chinesa. É também por causa da grande fascinação das crianças da escola que conhecemos o caminhão soviético que o pai de Lu Wenli dirigia, o Gaz 51 (a capa do livro desta edição da finada Cosac Naify é o projeto técnico da carroceria do caminhão). Naquela época, dada as limitações tecnológicas existentes, dirigir um caminhão de grande porte era algo muito importante e invejável na China de Mao Tse Tung.

Mo é expulso da escola por causa de um grande mal entendido e tem no seu ingresso ao Exército Popular da Salvação a única chance de um futuro promissor. É com o Exército que ele conhece Pequim, que no final da Revolução Cultural em nada lembraria a incrível capital de hoje; mas para seus simples olhos rurais, era como mudar de país. É no exército que Mo começa e escrever ficções.

É notória a percepção da evolução chinesa com a morte de Mao. A China de Deng Xiaoping já possuía políticas de abertura econômicas mais flexíveis e expansionistas. Yan mostra que ele e seus amigos da escola tomaram diferentes destinos embarcando nesta onda transformacional.

Mo Yan mostra a mudança da grande potência vermelha através de um ponto de vista mais humanizado, pontuado nas pessoas simples do povoado. Há uma crítica sutil acerca do sistema de apadrinhamento e no final do livro, sobre o suborno e corrupção. Não há relatos de tortura, porém há uma singela menção à famosa chacina estudantil de cunho político pró democracia ocorrida na Praça Celestial em 1989.

A grande sacada de “Mudança” ter ganho o prêmio Nobel é que na prosa despretensiosa de Yan, há muitos parágrafos subliminares. Outro ponto que gostei muito é que a narrativa fluida e leve faz com que Yan se parecesse meu avô contando sobre seu passado no campo, com várias expressões próprias chinesas.

Eu, que fui criança no final da década de 80, lembro bem da presença desse espírito chinês, ainda faminto da era Mao, nos grandes banquetes organizados pela Associação Chinesa aqui no Brasil. A China mudou, mas certos hábitos continuam incólumes no povo amarelo.

Trechos:

[1] “Me empresta dez iuanes, vou para o Nordeste procurar trabalho”, pediu ele. “Mas depois que você for embora, o que vai ser de seu pai, sua mãe e seus irmãos?”, perguntei. “O Partido Comunista não vai deixar eles morrerem de fome.” “Vai fazer o quê lá no Nordeste?” “Não sei, mas é melhor do que ficar aqui até morrer de fome, não é? Olha para mim, tenho quase trinta anos e nem consigo arrumar uma mulher para me casar, vou para outro lugar por uns tempos, mudar de lugar pode ser ruim para as plantas, mas faz bem aos homens.”

[2] Fomos ainda a um restaurante em Xidan e ficamos duas horas na fila para comer uma porção de jiaozis feitos à máquina, recheados com carne bem gorda, daqueles que espirram óleo a cada mordida. A máquina funciona atrás de um balcão baixo. Do lado de cá do balcão havia umas dez mesas. Para mim, aquilo era uma grande invenção, bastava colocar farinha, água e carne de um lado e os jiaozis saíam prontos do outro lado, caindo um atrás do outro numa panela de água borbulhante. Era extraordinário! Quando voltei para casa, contei tudo a minha mãe, que não acreditou em uma palavra do que eu disse. Pensando bem, os jiaozis de máquina tinham massa grossa e pouco recheio. Metade se desfazia na panela. Não eram nem bonitos, nem saborosos. Mas, naquela época, comer aqueles jiaozis de Xidan já era algo de que se gabar em casa. Hoje em dia ninguém mais quer saber de jiaozi de máquina, e os restaurantes fazem questão de colocar um aviso garantindo que a iguaria é feita a mão. E o recheio vegetariano superou o gorduroso na preferência popular. Isso ilustra bem como as coisas mudaram.

[3] “Não adianta falar mais disso”, concluiu meu pai, “você está vendo como estão as coisas em casa. Volte lá e faça o melhor que puder, sem poupar suas forças. Tem gente que morre de doença, mas trabalho duro não mata ninguém. Se você trabalhar sem medir esforços, um dia será notado por seus superiores (…)”

[4] No dia 3 de Novembro de 1981 nasceu minha filha. Na hora de escolher um nome para ela, meu irmão mais velho, que na época trabalhava em Hunan, sugeriu Ailian (amor ao lótus), porque meu primeiro conto tinha sido publicado na revista Lago de Lótus e também por causa do famoso ensaio “Do amor ao lótus”, escrito por Zhou Dunyi na dinastia Song. Como tudo aquilo soava muito banal, escolhi o nome Xiaoxiao, uma pequena flauta de bambu. Quando minha filha entrou na escola primária, a professora achou aquele caracteres complicados demais e mudou a grafia para “Sorriso”, que tem o mesmo som, mas é muito mais fácil de escrever, e assim ficou até hoje.

[5] No outono de 1987, Zhang Yimou chegou à Gaomi com Gong Li, Jiang Wen e toda a sua equipe para filmar Sorgo Vermelho, que naquela altura ainda tinha o título de Qingshakou 9-9, em referência a um incidente sangrento ocorrido no nono dia do nono mês lunar num lugar chamado Qingshakou. Esse era o tútulo escrito em vermelho na van que o grupo usava. Por que só adotaram o título Sorgo Vermelho depois que terminarem a produção do filme? Não perguntei, nem me disseram. Naquele tempo, uma filmagem era uma tremenda novidade para o povo da aldeia Nordeste de Gaomi. Desde o início dos tempos, nunca tinha sido gravada uma única cena num lugarejo remoto como o nosso. Antes de começar o trabalho, convidei o elenco para jantar lá em casa. Zhang Yimou e Jiang Wen vieram com a cabeça raspada e sem camisa, a pele queimada de sol. Gong Li vestia uma roupa de tecido rústico e usava um penteado típico das camponesas. Sem maquiagem, parecia uma moça comum, em nada diferente das nossas aldeãs. Para meus conterrâneos, que acreditavam que uma atriz seria como uma fada caída do Paraíso, Gong Li foi uma decepção. Quem diria que dali a pouco mais de uma década ela se tornaria uma grande estrela internacional, delicada, elegante, graciosa, encantadora. No dia em que começaram as filmagens, o local ficou apinhado. teve gente do povo que veio pedalando de outras aldeias, a dezenas de quilômetros de distância e gente do governo que veio de carro oficial. Todos chegaram animados e saíram desapontados.

[6] O elenco ficou na hospedaria da aldeia, cujos quartos, como era de praxe nos albergues dessa categoria, não tinham ar-condicionado nem banheiro privativo. Os atores da época não eram tão exigentes nesse aspecto quanto seus colegas de hoje. “Muitas pessoas tiveram má impressão dos atores, especialmente de Jiang Wen, que passou quatro horas numa ligação interurbana”. “Mas ele pagou a conta?”, perguntei. “Claro que pagou”, isso é um problema?” Hoje em dia, provavelmente ninguém se importaria com uma coisa dessas. Avançamos de forma significativa desde aquele interesse generalizado pela vida alheia até  a proteção à privacidade que temos hoje (…)”

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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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