Ventania

Autor: Alcione Araújo
Editora: Grupo Editorial Record
Ano: 2011
Edição: 1

Páginas: 322
Original: Ventania

Dedicatória:

Para Carolina, minha filha, minha fonte de alegria e de luz. Com agradecimentos a Andréa, Du, Glória, Ivone, João e Marisa. E gratidão a “Ora, la Dulce donna mi apparve senza più veli, In un pudore naturale… In tale confidenza passo senza stanchezza.” (L’Allegria, Giuseppe Ungaretti)

 

ventania

Encontro-me a indagar por que nunca me interessei pelas obras do Alcione Araújo. Depois que terminei de ler este livro, comecei a esboçar mentalmente um email para enviar para o autor dizendo o quanto eu gostei da história e que eu me identificava bastante com a Lorena Krull. Foi aí que descobri que ele faleceu em 2012.Coisas da vida. Ou morte.

O livro é narrado em primeira pessoa por Delfos (ou Philadelpho para os não tão íntimos), um homem de 47 anos, chefe da estação ferroviária de Ventania, uma pacata cidade brasileira. A história é contada como se fosse uma grande (re)leitura de um rascunho de um livro que ele está escrevendo, com direito a muitas notas de rodapé reflexivas escritas à lápis do tipo “não ficou legal, apagar depois”. Não sabemos ao certo a localização de Ventania, pois Delfos prefere manter o mistério acerca da identidade dos personagens.

Delfos, que tem apenas uma perna devido a um acidente, foca sua história sob a ótica de um homem apaixonado por uma moça mais jovem, Lorena Krull, filha de um engenheiro alemão, que trabalha na única biblioteca da cidade. Narrado em 1961, Ventania é sobretudo uma história de amores. Mescla o amor aos livros, à literatura e à leitura. Fala do amor platônico dele, do amor inocente de Zejosé, um menino de 13 anos, que tem problemas assumidos cognitivos, de Lorena, que descobre a paixão juvenil. Amores.

É compreensível que Delfos escreva bastante sobre Zejose e Lorena. Principalmente porque apaixonou-se por ela desde a primeira vez em que entrou na biblioteca. Por causa dela, leu Voltaire, Victor Hugo, Flaubert entre outros clássicos. É por causa dela também que ele decide virar escritor, pois assim, na cabeça dele, sob um horizonte ingênuo, ela o enxergaria com outros olhos.

A construção dos personagens é também especial: há o avô de Zejosé, que é meteorologista e amoroso; a mãe de Zejosé, que depois de perder o primogênito no acidente que tirou a perna de Delfos, vive acamada mas que não desiste de manter Zejose na escola; o pai de Zejosé, um comerciante bronco, que tem dificuldade em demonstrar afeto, a filha da empregada, que quer seduzir Zejosé a todo custo sempre que há alguma oportunidade; o carteiro, que lê as cartas das pessoas e mesmo sendo bastante obeso não conseguindo andar de bicicleta, torna-se o treinador do time de futebol de Ventania. Alguns outros personagens também aparecem, e são descritos de forma bem humorada por Delfos.

Ventania me atingiu no momento em que precisava de um estímulo, ainda que discreto, de retomar meu projeto de escrever um romance.

Destaques:

[1] Desde que passei a ler, entendo melhor o que vejo daqui da plataforma — é estranho, mas a leitura tem me ensinado a ver! Descobri tarde o livro, mas em tempo, porque tenho a impressão de que a leitura aumenta o tempo da vida — parece que, quando a gente lê, vive a própria vida e a vida dos personagens. Não posso falar como quem leu muito. Me encantei com a revelação, mas não li tanto assim. É claro que veio daí essa vontade infantil de rabiscar — nunca tinha pensado nisso! Rabisco estas anotações sem ser escritor, jornalista ou professor. Nunca redigi nada, a não ser em código Morse. Nem sei escrever, toda hora empaco na gramática ou corro ao dicionário. Não sei pra que essas anotações vão servir quando acabar — se é que vou acabar. Ou sei e não quero dizer. Coragem pra escrever não é coragem pra mostrar!

[2] — Não tenha medo de sofrer, querido. A dor sempre chega um dia. A gente aprende com ela. Não se vira adulto sem dor. E você vai ser adulto. Chorar é uma bênção. Alivia a dor de viver. Chora o que tem pra chorar.

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Sobre carolinayji

Desde que me conheço por gente, há algumas décadas, sou eu.
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